Um amor chamado Gradim

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Um bairro chamado Gradim
Bairro Gradim – Romário Regis

Gosto muito de todos os bairros da cidade, mas tenho uma queda em especial pelo Gradim. Foi nele que sai da infância e me transformei em adulto. Talvez não seja o bairro mais famoso ou procurado da cidade, mas sem dúvida é o mais charmoso.

O Gradim é literalmente a porta do Paraíso. Um bairro tranquilo de gente bonita e sorridente. As vezes tem confusão, mas nada que acabe com o brilho dos bons finais de semana cheios de cerveja, churrasco e ócio.

Tem a praça das crianças na parte do parque, tem a praça dos lanches, tem a praça de quem madruga e tem a praça dos bastidores que ninguém ousa revelar. Tem os casais que namoram no escurinho da Vicente Cardoso a pé ou os que namoram de carro na Restinga. Tem os mais ousados ainda que vão lá para a BR, mas aí é ter muita disposição.

No Gradim, todo mundo se conhece. Mesmo quem não se fala, já sabe quem namora com quem, quem deve, quem é legal e quem é escroto. Os donos de mercado já sabem, no olho, se aceitam fiado ou não dos moradores. Aliás, fofoca não é algo isolado no Gradim. Fofoca é premissa para morar aqui. Todo mundo é um fofoqueiro em potencial e por isso convivemos bem. É como se todos soubessem da vida dos outros e ficassem fingindo que nada aconteceu. Basta alguém passar, rolar um Oi e pronto, os cochichos logo começam.

Sabemos quem engravidou quem, quem foi preso, quem brigou, quem ficou rico, quem está desempregado, quem foi pro Uber, quem fugiu, quem foi solto, quem morreu e tudo isso em poucos minutos depois de acontecer. Somos melhores em comunicação do que o Jornal Nacional.

Venda de cafifas na Praça do Gradim – São Gonçalo
Venda de cafifas na praça do Gradim. Foto: SIM São Gonçalo.

Gradim de festa, futebol e carnaval

Nosso bairro tem uma rivalidade no futebol, por conta do Campo do Marimbondo e do Campo da Igrejinha. Tem rivalidade no carnaval por conta das duas escolas de samba. Tem rivalidade no amor, porque todo mundo tem um ou uma amante em potencial no bairro. Que bairro! Entre a paz e a confusão, ele sobrevive com todo mundo crescendo junto.

Falando em Escola de Samba, não podia esquecer do Carnaval do Gradim. Que carnaval senhores! É no carnaval que todo mundo se encontra, pelo menos uma vez ao longo da semana. Conseguimos saber quem emagreceu, quem engordou, quem casou, quem tem filho, quem está mais feio ou bonito. Parece que o tempo passa e o carnaval continua o mesmo. Sempre tem o bloco do “O Rei Morreu” que junto dos seus 5 integrantes nunca deixa de passar. Tem a cama elástica que fica na esquina da Basílio Costa. Tem o Churrasco da esquina da João Cândido, tem a festa que nunca acaba mesmo com a casa de shows mudando no final da Capitão João Manoel.

Ah! No Gradim também tem o saudosismo da festa da Primavera, que mesmo sendo fora de período de comemorações, lotava as ruas. Tem a saudade dos bares temáticos de cada time, tem a saudade de quando você ia pra rua e a qualquer momento tinha gente brigando por conta de futebol. Tem a saudade de brincar na rua sem medo de assalto.

Gradim é terra de comprar pão cedinho no mercado Mancebo. Terra de lembrar que na esquina do mercado, na época chamado Galo Branco, tinha um pastel artesanal que virou a CPI dos Caldos. Gradim é terra comprar pão com o padeiro de bicicleta que ninguém sabe o nome, mas todo mundo se diverte com sua simpatia. É terra de vizinho não se gostar, mas viver dando sorriso um pro outro exalando solidariedade pública, mas se mordendo por dentro.

Nosso bairro tem mitos também. Tem o mito de que a Rua dos Portugueses é a rua das mulheres mais bonitas no Bairro. Tem o mito de que toda noite algum x-tudo está aberto a madrugada inteira. Tem o mito de que nosso bairro é o maior celeiro de jogadores de São Gonçalo. Enfim, temos lendas urbanas que invejam os melhores contos da Disney.

Ai de tí, Gradim. Que você nunca perca essa graça. Que o tempo passe, a gente envelheça e você continue charmoso como sempre foi. Mesmo com seus problemas, como é bom caminhar por você sabendo que nossas histórias sempre estarão registradas nos asfaltos do bairro.

12 COMENTÁRIOS

  1. Moro perto e lamento ter que dizer que toda inspiração e romantismo em relação ao bairro logo acabam quando você anda pelo bairro e vê: pertinho da praça um terreno vazio que foi transformado num imenso lixão; valões abertos, sujos e berçários do aedes aegypti pelo bairro inteiro; recentemente assaltos frequentes em torno da praça; calçadas esburacadas, desniveladas, invadidas por comerciantes obrigando mães a se arriscarem a andar com seus carrinhos de bebê no meio da rua, assim como cadeirantes e mesmo pedrestes; poeira por todo lado, ruas esburacadas e enchentes constantes; ao longo da noite, toda a praça é tomada por carros mal estacionados, e lixo jogado por toda a parte. O que tem de bom? Para mim só restou a simpatia da garçonete do Amarelinho do Gradim e sua cervej super gelada.

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  2. Esqueceu dá festa da igrejinha,dos pegas,do cachorro quente do Sérgio na praça, que ficava aberto a madrugada toda. Dá rivalidade na cafifa entre a restinga e a Henrique Dias.Saudades dessa época.

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  3. Texto bonito, poético, romantizado, mas sem nenhuma criticidade. Gradim hoje, é mais um bairro que sofre pelo abandono e descaso dos governantes. Basta chover e vai por água abaixo a beleza do bairro que tem em seu texto.

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  4. Texto muito bom!

    Nasci e cresci por ali, e há alguns anos atrás o único grande problema do bairro era a falta de ônibus. O bairro hoje sofre muito por conta da violência o aumento no número de assaltos. Problemas comuns como alagamentos e falta de água potável também. Mais ainda é para mim um dos melhores bairros na cidade para viver.

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  5. Sou nascido e criado no Gradim. Morei na Rua Cruzeiro do Sul ate 1983, próximo à favela do gato, Sardinhas Rubi e Clube Náutico, em uma vila que dava para o antigo estaleiro CEC e praia da Magata, onde há um dique.
    Foi um tempo muito bom, até a implantação desta maldita BR-101, que obrigou a várias famílias a saírem de suas casas, desapropriando-as.
    Tempos em que podíamos brincar na rua até de madrugada, jogar futebol, queimadinho, pique se esconde, entre outros.
    Depois que mudamos de lá, nunca mais fui àquela área e leio constantemente em jornais, casos de violência no local. Tenho boas lembranças daquele local e hoje, não tenho coragem sequer de passar por lá. Infelizmente.

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  6. Eu sempre disse para meus amigos que Gradim é Zona Sul de São Gonçalo kk, temos uma diversidade de mercados (mercadinhos), bares, lanchonetes, farmácias, algumas academias, e uma praça bonitinha, também temos fácil acesso ao Shopping SG (BR). Tem alguns bares e “bailes” que funcionam no final de semana e vão até de manhã cedo. Temos fácil acesso ao Paraíso e Parada 40 onde encontramos bancos e grande diversidade de comércio, a rua da caminhada e mais opções de ônibus para o Rio de Janeiro, por exemplo. No Gradim quando pego o ônibus que vai pela BR e a mesma está tranquila, em 15 minutos estou no centro de Niterói, por isso eu sempre prefiro resolver tudo por lá ao ter que ir para Alcantara ou São Gonçalo. Infelizmente próximo a praça do Gradim tem um terreno baldio que devido ao descaso da prefeitura se tornou um grande lixão, vira e mexe recolhem os lixos e logo depois está lixado novamente. Quando chove então, essa mesma área fica alagada e vem aquela mistura de esgoto que não é bom. Os comerciantes próximos estão sofrendo com isso também devido ao grande cheiro de esgoto. Desde o último ano algumas coisas estão acontecendo e estão vindo assaltar nosso bairro. Porque gente daqui mesmo todos nós sabemos que não são. Esse é outro ponto positivo no Gradim, você não vê tiroteio, pessoas armadas nem nada do tipo, tem algumas favelinhas isoladas, mas nas mesmas o tráfico não incomoda, pois não é agressivo, o bairro em si é muito tranquilo. Eu me mudei recentemente pra Trindade e digo que em termos é melhor que o Gradim. Mas cresci no Gradim e nunca vou esquecer desse bairro tão tranquilo e acolhedor.

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