“Fica, Alessandro!” Comparando os índices de violência em São Gonçalo

684
Uber São Gonçalo

Embarquei no Uber, na porta de casa, em São Gonçalo. Itinerário confirmado, logo eu e o motorista demos início a uma conversa que só seria interrompida com o meu desembarque. Dentre mil assuntos, a certa altura chegamos ao inevitável: violência urbana.

Alessandro, o motorista, desatou a falar. Dizia-se morador da cidade e revelou o plano de se mudar para Iguaba Grande tão logo conquistasse sua aposentadoria. Segundo sua avaliação, São Gonçalo se tornou um lugar perigoso demais.

Parece fazer sentido. Segundo o Atlas da Violência 2017 – estudo produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) juntamente com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) – a cidade às margens da Baía de Guanabara ocupa a 14ª posição dentre as mais violentas do estado do Rio de Janeiro, com a marca de 40,9 mortes violentas por grupo de 100 mil habitantes.

Mas vejamos, Araruama e Cabo Frio ocupam respectivamente a 3ª e 4ª posições no mesmo ranking. O município de Iguaba Grande se situa entre as duas cidades da Região dos Lagos onde o número de mortes violentas não é menor que 56,1/100 mil habitantes. Bem, até que se prove o contrário, 56,1 é mais do que 40,9. Não me parece exatamente seguro se mudar pra esses arredores…

Tarcísio Bueno – Escola e Patrono
Paraíso – São Gonçalo-RJ

São Gonçalo é tão violenta assim?

Segundo o relatório “Os jovens do Brasil” (2014), que integra a série de estudos “Mapa da violência”, da Faculdade Latino-americana de Ciências Sociais, de 2002 a 2012 o estado do Rio de janeiro respondeu por quase 69 mil homicídios dos quais a capital contribuiu com nada menos que 38% da cifra, isto é, mais de 26 mil mortes, números de guerra. Não bastasse isso, a cidade do Rio se apresenta recorrentemente como cenário de chacinas de enorme repercussão, reafirmando sua história de violência estrutural. A depender do ponto de vista, a ‘cidade maravilhosa’ pode ser facilmente convertida em Hell de Janeiro. E aviso aos navegantes: cor da pele, endereço e saldo bancário são aspectos determinantes de qual dessas duas cidades será servida aos moradores e visitantes.

Vizinha da capital, o 1° IDHM do estado e o 7° do país não impedem Niterói de patinar na marca de 35,6 homicídios para cada 100 mil habitantes. De acordo com a metodologia do Atlas, é a 17ª cidade a ilustrar o ranqueamento fluminense. Em comparação com São Gonçalo, a renda da população economicamente ativa na terra de Araribóia é superior em mais de 50%, revelam dados do IBGE.

Não obstante, foi necessário que o índice geral de crimes de São Gonçalo crescesse 106%, entre 2003 e 2016, para que viesse a superar – por diferença mínima – a cifra niteroiense: 4.626 versus 4.592 registros de ocorrência por fração de 100 mil habitantes, respectivamente, atribuídos ao último ano de referência, conforme apuração do Instituto de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro. Fonte de tais resultados, Niterói era o destino da corrida de Uber à qual déramos início em São Gonçalo, mas o Alessandro não tem medo de transitar pela ‘cidade sorriso’. Porque será?

Com exceção de São Gonçalo, todas as cidades citadas têm em comum o fato de serem turisticamente ativas. São ofertadas ao público consumidor como territórios legítimos, dignos de se ‘aproveitar a vida’. Isso acaba colaborando, em alguma medida, para que São Gonçalo seja assimilado como território periférico suburbanizado, inclusive pela população local. Uma ‘zona lost’, deserto de expectativas.

Só faltou combinar isso com os institutos de pesquisa em segurança pública. Afinal, as estatísticas sobre violência urbana no estado não confirmam as fraudes projetadas nos gabinetes de marketing turístico.

Fica, Alessandro!

2 COMENTÁRIOS

  1. Oi Fabiano!

    Estou residente em São Gonçalo, não conheço Iguaba Grande e as vezes trânsito pelo centro de Niterói.

    Não tenho propriedade para falar das outras cidades, mas sobre São Gonçalo tenho a dizer que essa sensação de insegurança se dá, principalmente por ruas mal iluminadas ou sem iluminação, pela percepção de ausência de policiais nas ruas, pela imagem arranhada do 7° BPM, pela irregularidade no serviço de coleta de lixo, pelas ruas sem conservação, etc.

    Ruas sem conservação, mal iluminadas e uma coleta de lixo ineficiente já são suficientes para transformar até mesmo Buritizal/SP em uma cidade-fantasma.

    Se você somar esses fatores com políticos que não demonstram interesse em melhorar a cidade e as notícias das páginas policiais, eu diria que o Alessandro tem toda a razão em querer sair. Talvez só devesse escolher melhor destino. #vahalessandro

    View Comment
  2. Primeiramente, Adriano, muito obrigado por se manifestar. É uma honra receber o seu comentário.

    Mas vamos ao que interessa: perceba que, basicamente, os problemas que você enumera são muito comuns ao fenômeno de territorialidade historicamente conhecido no Brasil como ‘favela’ ainda que, do ponto de vista da ocupação territorial, São Gonçalo seja uma cidade polimorfa, mesclando grosso modo e simultaneamente regiões urbanizadas, suburbanizadas e favelizadas, talvez até rurais. E de fato, reunidos os aspectos que você nos traz, essa subjetivação coletiva que nos convoca a admitir SG como território constrangedor se torna cada vez mais sedutora.

    Na minha opinião, é a partir desse ponto que a situação se torna um pouco mais complexa. Afinal, se determinados aspectos indesejáveis são compartilhados por ambas as expressões de territorialidade, por que motivo haveria todo um processo de justificação ideológica da favela, a ponto de pesquisas de opinião concluírem que mais de 60% dos moradores de favelas brasileiras não desejam se mudar de onde vivem? Em outras palavras, por que a favela se tornou uma espécie de ‘instituição nacional’ comemorada em verso e prosa é o mesmo não se dá em relação à São Gonçalo?

    Não é minha ambição oferecer respostas definitivas. Desde seu surgimento, a favela é alvo de abordagens negativas, mas é notório que em algum momento seus moradores deram as costas às críticas e desenvolveram mecanismos de resiliência. Penso que nos falta essa fibra triunfal, falta a constatação fundamental de que, se esse é o lugar onde criamos nossos filhos, tem de ser o melhor lugar do mundo. Que não lhes seja vetor de constrangimento, mas de bem-estar, um bem-estar que não necessariamente resulta da resolução dos problemas, mas da conquista da dignidade via pertencimento.

    Todo mundo tem um lugar pra chamar de seu. Que as palavras de Gilberto Gil ressoem em sua mente e proporcionem essa conquista: “o melhor lugar do mundo é aqui e agora”!

    View Comment

RESPONDA AO COMENTÁRIO

Escreva seu comentário aqui.
Por favor, insira seu nome aqui.