Há um ano e meio atrás, peguei um Uber no Rio. Conversando com o motorista, pra variar, falei que sou de São Gonçalo e tal. Ele me respondeu que conhecia a cidade. Tinha sido motorista por aqui e tinha medo. Disse que cidade era bem conhecida por eles por conta dos frequentes roubos de cargas.

Meses depois, ainda em 2016, uma parente minha foi até uma loja comprar uma máquina de lavar. Na hora de especificar a entrega, a pergunta: “É no Rocha, Galo Branco ou pela região? Porque, se for por ali, a gente não está fazendo entrega. Nosso caminhão não vai lá por causa dos roubos.”

Pensei em publicar algo naquele momento, mas achei precipitado. Não era. Em 2016, os roubos de cargas no estado do Rio de Janeiro chegariam a 9.870 casos registrados.

São Gonçalo não está sozinha nessa. Baixada e capital estão conosco, juntas nesse drama.

Índice dos roubos de cargas no Rio de Janeiro de 2013 a 2016.
Índice dos roubos de cargas no Rio de Janeiro de 2013 a 2016. Infografia: RJTV. Fonte: ISP – Instituto de Segurança Pública.

Índices de roubo de carga no Rio de Janeiro (ISP-RJ)

  • 2013: 3.534 casos
  • 2014: 5.890 casos
  • 2015: 7.225 casos
  • 2016: 9.870 casos

Possível explicação para o crescimento do roubo de carga

Depois de 2010, com a invasão do Morro do Alemão e o crescimento das UPPs, o crime se espalhou pelo estado inteiro. São Gonçalo, como sabemos, abrigou alguns dos refugiados das favelas que receberam as Unidades de Polícia Pacificadora.

Entretanto, aqueles que saíram para as cidades do leste Fluminense e da Baixada não ficaram de bobeira. Pelo contrário. Os comerciantes de drogas buscaram treinar e equipar suas “filiais”. A piora do crime nos últimos 7 anos foi sensível.

A presença de armas de grosso calibre no Morro da Coruja, Salgueiro, Feijão, Rua da Feira, Morro da Dita, da Caixa d’água, Chumbada, entre outras diversas regiões como na baixada, zonas norte e oeste deixaram os bandidos ainda mais fortalecidos no estado.

Vila Três, Alcântara – São Gonçalo
Homicídio ocorrido no Morro da caixa d’água, bairro do Vila Três em 2015.

Mas aí, a crise econômica chegou.

E as bocas de fumo, pontos de venda de drogas, sentiram a crise. Afinal, o tráfico de drogas também é um comércio.

No primeiro momento, foram os roubos a pedestres que subiram. Mas os constantes assaltos para pegar jóias, dinheiro e celular mudaram hábitos. Fizeram as pessoas andar com pouquíssimo dinheiro na carteira e quase nenhum anel, pulseira e colar. Tem gente que nem celular mais leva pra rua.

Os bandidos perceberam isso. Perceberam também que seus parentes estavam sendo assaltados.

Viram que os celulares roubados precisavam ser vendidos. Mas, como, se a crise está deixando todos com menos dinheiro?

Foi aí que algum desses gênios do crime olhou para a tática dos milicianos.

Na milícia, se vende gás, gato net, cobra-se taxa de segurança, do transporte alternativo… ou seja, todos os produtos/serviços do dia-a-dia das pessoas.

São esses produtos/serviços que não param de vender nem por um segundo. São eles que dão dinheiro vivo na mão. Todo dia, toda hora. Especialmente da população mais pobre, que não faz transações bancárias com cartões de débito e crédito com a mesma densidade que aqueles com maior renda.

Roubo de cargas no Rio de Janeiro
São Paulo e Rio de Janeiro, um dos eixos mais perigosos para o transporte de cargas no planeta. Foto: Blog do caminhoneiro.

Com bandidos bem armados, equipados e com o território dominado, as estradas se tornaram um alvo fácil. E o meio de roubar produtos para vendê-los mais baratos dentro das comunidades e bairros mais pobres mostrou-se um ótimo negócio.

Nesse fluxo, transformaram o eixo Rio-São Paulo num dos lugares mais perigosos para cargas no mundo.

Isso. Você não leu errado: Rio e São Paulo é a região responsável por quase 88% dos roubos de cargas do Brasil e uma das regiões mais perigosas para o transporte de cargas no planeta.

Só no estado do Rio, acontecem 43,7% dos crimes deste tipo.

Veja: o Brasil tem mais de 200 milhões de habitantes. O RJ tem pouco mais de 16 milhões. Se só aqui temos quase metade dos crimes de roubo de cargas, com uma população pouco menor que um décimo, há algo bem errado.

E você, consumidor, o que tem a ver com isso?

O Rio de Janeiro é um estado rico com uma população pobre. Segundo maior PIB do Brasil, com um dos maiores índices de trabalho informal. Gente que vive com pouco, na corda bamba, sem crédito fácil, muito menos barato.

Terreno fértil para agiotas e para aqueles que vendem produtos roubados.

Roubos de carga e o prejuízo aos Correios Foto: Guito Moreto/Jornal Extra.
Roubos de carga e o prejuízo aos Correios Foto: Guito Moreto/Jornal Extra.

Correios e as ‘áreas de risco’

Um dos problemas que muitos gonçalenses e moradores de regiões com alto índice de roubos e furtos de carga sofrem é com essa rotulação dos correios. Infelizmente, aqueles que mais transportam cargas para o consumidor final, diretamente para suas casas, são um dos alvos prediletos.

E aquele seu pedido, que você aguardava há tanto tempo, pode ter parado nas mãos de bandidos.

A própria agência dos Correios, ali no Zé Garoto, já foi roubada e furtada algumas vezes nos últimos tempos. Era comum ver o local fechado, porque os funcionários, ao chegar para trabalhar, se deparavam com a loja arrombada.

Um aviso sobre a falta de funcionamento estava no portão da unidade do Zé Garoto ontem Foto: Leonardo Ferraz
Um aviso sobre a falta de funcionamento estava no portão da unidade do Zé Garoto. Foto: Leonardo Ferraz / O São Gonçalo

Um crime que financia outro contra você

Quando compramos produtos roubados financiamos quem está roubando. Não serei hipócrita, pondo a culpa completa no consumidor. Até porque, com o baixo nível educacional e de renda que temos em nossa população, exigir que ela prefira os produtos da loja pode ser uma piada, uma vez que, talvez, as pessoas nunca tenham acesso aos bens que tanto veem nas propagandas a todo momento.

Educação e ética são pontos complicados em nossa sociedade. É claro que todos precisam tê-las. Mas nem sempre são esses argumentos que podem convencer alguém a não escolher produtos baratos que foram roubados.

Porém, esse pode servir: quem te vende esses produtos hoje, comprará aquelas armas que te assaltarão nas ruas amanhã. Ou assassinar um parente seu. Simples assim.

O crime de receptação de produtos roubados, financia aquele que rouba. Este, por sua vez, insere dinheiro na economia do crime. E o ciclo continua.

Escassez e encarecimento dos produtos

Talvez isso já aconteça em menor escala.

Sabe aquele produto que não chega mais ao mercado com frequência? Ou aquele outro que só se acha na outra cidade? Ou ainda mais: cadê aquelas “marcas A”? Será que deram lugar às “marcas B” de vez?

O que te faz pensar que um fabricante ou transportadora irá querer voltar numa região que já os roubaram tantas vezes? Será que, mesmo com um PIB tão grande, valerá a pena trabalhar com um mercado onde há tantos crimes?

Esse tipo de raciocínio passa longe de nós. Mas em momentos de crise, onde as vendas diminuem, essas substituições de marcas de qualidade por outras são comuns. Porém, neste caso, a vontade de não ser roubado do fabricante é maior que o desejo do consumidor.

E quem paga no final? Nós. Afinal, os poucos produtos que chegaram, vieram com um aparato de segurança tão grande que os encarecerão ainda mais.

Soluções possíveis

Mais que não comprar produtos roubados, da nossa parte, ou ampliar os investimentos em segurança, da parte dos comerciantes, acredito que temos outros gargalos a repensar. Especialmente na questão da reforma tributária.

Enquanto nossos impostos não forem revistos e redistribuídos, produtividade e logística continuarem sendo complicadores dentro do Brasil, nossos produtos continuarão extremamente caros para a população mais pobre. Que, naturalmente, é um dos clientes preferidos por aqueles que acham ser, mas não tem nada de Robin Hood.

Como nada disso vai acontecer tão cedo, os nossos bandidos vão se aproveitando das brechas abertas na segurança do estado pela crise econômica.

Paliativos serão feitos. Mas sabemos quem sofrerá com isso no final: Nós.

7 COMENTÁRIOS

    • Nós que agradecemos a audiência, Daelson. Quanto mais informação e reflexão sobre segurança pública tivermos, melhor para todos. Só assim para entendermos a realidade com a cabeça erguida, com menos medo. Já o governo, finge que não sabe. Afinal, as eleições são ano que vem.

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  1. De certa forma é como uma bola de neve , quase uma avalanche
    De uma parte o governo corrupto, ineficiente que quase nunca é punido
    isso traz uma margem de desesperança e revolta, também serve como exemplo de coisas erradas “afinal o exemplo vem de cima”
    o trabalhador não tem nenhum incentivo
    nem sempre comprar ferramentas e equipamentos é possível pelo alto preço e impostos,
    os cursos técnicos quase não são acessíveis para a população de maior idade
    transporte caro, “sem poder ir e vim com facilidade fica difícil procurar melhores oportunidades”
    educação disfuncional, professores só fazem greve para aumentar o salário momentaneamente e não para resolver o problema,
    políticos se aposentando com poucos de mandato, aumentando o próprio salário
    pais super produtor onde a população pobre tem que acompanhar o mercado externo onde o salário é diferenciado , se produz aqui se exporta pelo valor do dólar e ficamos disputando os restos

    eu moro em uma área que acontece muito isso do artigo, e não é só gente da comunidade que compra não, vem carros luxuosos, gente de longe comprar em grandes quantidades e vejo os próprios policiais quando fazem operação levando mercadorias para os carros, já até escutei eles falando que iriam encher a dispensa

    chegou em um ponto que o errado que passou a ser o certo e ficamos cercados sem ter o que fazer
    bate revolta de tudo isso
    também nem posso mais comprar as coisas de grande porte nas lojas ou internet porque não entregam aqui, não tenho carro, e nem sei dirigir

    e posso dizer que é uma grande tentação se deixar levar

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