Salvem o jornal O São Gonçalo

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O texto abaixo reflete a opinião do autor, Mário Lima Jr.

Até junho de 2016, eu considerava o jornal O São Gonçalo uma publicação desprezível. Vendendo violência, é indigno de carregar o nome do 16º maior município do Brasil, onde vivem 1 milhão de pessoas. O jornal continua inútil, mas meu ódio por ele se foi.

Quando estive na exposição “Belarmino de Mattos 125 anos – Patrono do Jornalismo Gonçalense”, vi que a história do jornal é maior do que a falta de cidadania da direção atual, que desconhece os princípios jornalísticos. O São Gonçalo circula há longos 85 anos. Merece ser salvo, não odiado.

Belarmino de Mattos fundou o jornal O São Gonçalo em 1931. Era mais que um jornalista. Ele atuou em áreas como política, cultura e economia e ajudou a criar instituições diversas, como hospitais e ligas esportivas. O São Gonçalo foi fundado por um gênio que desejava que o veículo fosse “uma árvore imortal, árvore da inteligência, da vontade popular e das aspirações públicas”. Ainda nas suas palavras, Belarmino queria dotar a cidade de “uma grande voz que falasse ao povo do município, aos nossos vizinhos do Brasil inteiro”.

O jornal O São Gonçalo de hoje

Hoje, de propriedade da Fundação Universo e presidido por Wallace Salgado de Oliveira, temos nas páginas nefastas do diário o oposto dos valores humanos cultivados por seu fundador. A publicação é usada como um brinquedo para exercício da vaidade e gosto pela violência, onde fotografias de integrantes da família Salgado de Oliveira são publicadas na capa como exemplos de gonçalenses ilustres. Um autoelogio medíocre.

O São Gonçalo não traz informações sobre o dia a dia político e econômico da cidade, que favoreçam a formação da opinião pública a respeito da realidade caótica gonçalense. Ele prefere fazer parcerias de divulgação com restaurantes, em vez de se aproximar de livrarias e grupos culturais, tão ignorados aqui.

Apesar do nome da publicação, não bastasse a quantidade de cadáveres gonçalenses que exibe, os assassinatos em Itaboraí, Maricá, Niterói, Rio Bonito, Tanguá e Região dos Lagos também foram incorporados à pauta. Formam uma colcha de retalhos sangrenta, descompromissada com o desenvolvimento da capacidade crítica do leitor.

O Sr. Wallace Salgado de Oliveira poderia alegar que preside uma empresa que paga contas e salários em tempos de crise econômica, ao invés de manter um ideal. Desde que vejo o jornal nas bancas, há pelo menos quinze anos, ele jamais tentou qualquer reformulação em direção a um veículo mais completo e provavelmente mais rentável.

O Jornalismo é um dos pilares da democracia. Por isso, cada canal de notícias carrega importante responsabilidade social onde é publicado. A Fundação Universo poderia mudar o seu nome para algo mais apropriado como “O Boletim de Ocorrências”. Ou então, adotar a verdadeira missão de um jornal.

2 COMENTÁRIOS

  1. Realmente um artigo digno de nota, Mario Jr.
    Suas opiniões sobre nosso único diário de notícias são, infelizmente, corretas.
    Nossa cidade merece mais do que apenas um simples “RO” cotidiano…

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