E este é apenas o final da história. Aqui, nessa mesma esquina onde tudo começou. Você está lindo com esses cabelos já salpicados por intrusos fios brancos. Eu me sentia velha até agora, então seus olhos pousaram em mim e tiraram a teia desses trinta anos. Mas este é só o final.

Aqui não tem o estranhamento de nos reconhecermos almas gêmeas vagando por este mundo até aquele encontro na porta da Hollywood. Aquele dia nós nem entramos, ficamos conversando no muro do Adino Xavier por todo o tempo que tínhamos até que se acabasse a matinê e nossos amigos voltassem para casa. Na hora de ir embora você me falou que podia até estar confundindo as coisas e não queria perder a minha amizade, mas que estava louco para dar um beijo em minha boca. Você escondia as mãos para trás e olhava para a ponta do Nauru, encabulado, e eu achando que você ficava lindo com as bochechas rosadas de vergonha e que nunca tomaria coragem de me pedir aquele beijo.

Aqui não tem a primeira vez em que nos amamos, os dois inexperientes realizando um desajeitado e cômico balé no sofá velho que a minha mãe deixava na varanda. Aquele sofá não está aqui também, mas talvez nele tenhamos vivido os melhores momentos de nossa paixão, os melhores beijos, os melhores papos.

Ainda tem o Caneco 90, ali na frente, mas não tem os vinte anos que passei fora de São Gonçalo, vivendo em um casamento que me deu dois filhos, 25 quilos e me levou o sobrenome de minha mãe. Não tem as brigas, as taças quebradas, nem os telefonemas interurbanos na madrugada para o seu trabalho para perguntar amenidades apenas pelo prazer de ouvir a sua voz. Não tem aquela menina que você me apresentou como sua esposa (a terceira ou a quarta?) uma vez no Plaza Shopping, em uma das raras vezes em que eu atravessava a Baía de Guanabara de volta e que ficou de bico enquanto a gente dava gargalhadas na praça de alimentação lembrando dos velhos tempos, dos velhos points – e daquele Nauru desbotado que você teimava em usar.

Aqui não tem o enterro de meu filho, a bandeira do Vasco sobre o caixão, os seus óculos escuros a me observarem do fundo da capela enquanto eu me inumanizava em lágrimas. Não tem a sua reabilitação, nem os espasmos febris de sua abstinência – assim você me contou uma vez, já que eu não estive perto. Não tem aquele Palio que você destruiu no poste em frente à prefeitura, e que levou dois de seus amigos e sua última esposa.

Aqui só temos eu e você. E uma saudade imensa. E o muro do Adino Xavier, e o prédio da antiga Hollywood, o Caneco 90 à frente e o conjunto de prédios que na época era novo e que agora nem é mais, assim como nós.

E uma vontade louca de te beijar de novo, como naquela noite, há 30 anos. Porque este é apenas o desfecho de mais uma história que demorou, mas está prestes a encontrar o seu final feliz.

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