Leandro Firmino – o Zé Pequeno em São Gonçalo

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Leandro Firmino – o Zé Pequeno em São Gonçalo
Leandro Firmino – o Zé Pequeno em São Gonçalo. Foto: Leo Martins / Agência O Globo

A minha cidade parece uma pessoa que não sabe pra onde vai e ainda pegou o ônibus errado. Uma cidade que não é capaz de detectar seus valores.

Estou cansado do discurso de quem não domina o assunto. Estou cansado da burocracia que conduz a cultura a falcatruas. Sou da prática. Enxergo o jogo. Sei como funciona, das etapas, mas, em cada etapa, há um desonesto no caminho que engole os que lutam com honestidade.

Convivi com um cara muito honesto quando trabalhei na FASG e depois na Secretaria de Cultura. Meu amigo até hoje, o grande Toninho, cinéfilo morador de Santa Catarina, logo capturou a presença do Leandro Firmino em seu bairro. Ele chegou na secretaria e nos anunciou essa novidade. Logicamente, como um amante da arte, fiquei muito feliz.

Imaginei várias possibilidades pro Leandro Firmino contribuir com a cidade. Porém, só agora o poder público percebeu a importância de ter o Leandro compartilhando tudo de bom que aprendeu em sua caminhada. A equipe da Secretaria de Desenvolvimento Social teve a sensibilidade de convidá-lo. Aí então, o Leandro está exercendo a função de facilitador no serviço de Assistência Social, dando aulas de improvisação e interpretação nos CRAS. Toda uma demanda reprimida de desejos deságua com muito amor em direção aos seus alunos.

Quando há amor, há uma força que ultrapassa a generosidade. O Leandro chegou na cidade cheio de vontade de servir a São Gonçalo. Lutou, se interessou e o momento chegou. Passado três anos da sua chegada à cidade, ele divide sua arte com amor, derramando afetividade genuína em seu trabalho. Fala dos seus alunos com os olhos brilhando. Somos da equipe do serviço de convivência e fortalecimento de vínculos.

Algumas vezes, estivemos juntos nessa missão. Perceber a recepção que ele recebe é de emocionar. Trampar na Secretaria de Desenvolvimento Social é amar e servir: ultrapassa como um raio o limite da arte. Embora se possa imaginar que a arte não tenha limites, ela é um grande veículo pra vida. A arte necessita da vida, então o que o Leandro tá podendo fazer é vida, é viver além do limite, é viver no sorriso do seu próximo, é enxergar versos sendo rabiscados na alma dos seus alunos, que participam das suas aulas com todo encanto de quem percebe sentimento pleno em cada palavra.

O lindo é perceber como as pessoas querem ser amigas do Leandro. Sabemos que o personagem Zé Pequeno marcou a história do cinema. Como diz o Mano Brown, quem admira quer uma proximidade, quer interagir, e o Zé Pequeno instintivamente entende muita coisa, tem virtudes comuns à sua natureza.

Sendo um cara acolhedor, tem a inteligência que permite o outro amar, que é uma das melhores formas de saber amar. Naturalmente, faz em sua vida coisas que se encontram na filosofia. Sempre diz que seu avô, que estudou pouco, era um cara de muita sabedoria, e que ele bebeu muito nessa fonte de saber. Ele entendia o sistema de poder, na complexidade que um doutor em Sociologia explicaria de forma rebuscada, mas não diferente.

Quando o Firmino chega aqui, cheio de vivência, sem falar a insuportável linguagem acadêmica, sem a pretensão de mudar o mundo pra si e cheio de honestidade no olhar. Especialmente quando fala da esposa e do filho. Aliás, toda vez que atende o telefone e é a Letícia, sua esposa, a voz ganha uma ternura encantadora. Sem perceber, dá uma lição de vida pra quem ouve a conversa, tratando-a com toda doçura de um grande amante, como um Neruda inspirado.

Quando o poder público absorve em seus quadros um homem dessa sensibilidade, dando a chance de, via poder público, a cultura não se resumir ao centro da cidade; quando o poder público entra com sua face generosa no Porto do Rosa, no Engenho Pequeno, no Salgueiro, na Amendoeira, alguma coisa toca o meu coração.

Quando o poder público chega no olhar do Leandro Firmino, com a dedicação de quem pensa que temos que salvar as crianças do Brasil e tem ações nessa direção, me ascende a esperança de que a minha cidade pode descer do ônibus errado e procurar um lugar pra ir de forma consciente. Por isso, precisamos de mais Toninhos em São Gonçalo, gente que pulsa honestidade e enxerga no Leandro uma nova era pra cultura da cidade.

Revisão: Prof. Edson Amaro.
Foto: Leo Martins / Agência O Globo

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