Dentro do Pandiá ocupado

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“Aprendi a jogar xadrez dentro do Pandiá ocupado, e como lutar por meus direitos. Aprendi muitas coisas legais na ocupação”, me disse o jovem Wilson, aluno do 3º ano do Ensino Médio do Colégio Estadual Pandiá Calógeras, que faz parte do movimento Ocupa Pandiá e guiou a visita que fiz à escola.

A ocupação, parte da mobilização estadual por melhorias na Educação, teve início dia 26 de abril. Entre as reivindicações locais estão reformas na infraestrutura do Pandiá, como a construção de cobertura para a quadra de esportes, e a devida manutenção e limpeza das instalações (baratas e resíduos foram encontrados pelos alunos na caixa d’água central e nas torneiras do refeitório). O movimento já comemora algumas demandas acatadas pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro, um simulado para o ENEM produzido pelo corpo docente e dois tempos de aula de Sociologia e Filosofia a partir de 2017, por exemplo. Mas “a luta continua”, nas palavras confiantes de Wilson.

Quando estudei no Pandiá, os jovens que lá estão varrendo, cozinhando e cuidando do patrimônio público nem eram nascidos. Lembro bem dos desafios entre valentões durante as aulas, há 22 anos atrás, e das brigas sangrentas no intervalo em campo aberto, com a torcida dos oponentes gritando ao redor. A recepção calorosa do grupo, extremamente inteligente e simpático, a disciplina rígida que não permite o fumo nas dependências da escola e a clareza das reivindicações surpreendem. Quem pensa encontrar um ambiente sujo de jovens baderneiros, vibrando porque tomaram a escola, transando nos corredores como ignorantes contra a ocupação alegam, não conhece militância política e não sabe do que a juventude gonçalense é capaz.

Dentro do Pandiá ocupado se aprende façanhas que a maioria do povo chega à terceira idade sem saber, como a Linguagem Brasileira de Sinais, organização política e ação social. “Eu aprendi na ocupação” é a frase mais ouvida pelo visitante; por desenvolver jovens sensatos e articulados o Pandiá Calógeras é o colégio mais completo de Alcântara hoje e provavelmente dele já nasceu a nova elite política e intelectual da cidade de São Gonçalo, não dos colégios privados.

O bebedouro de concreto que eu usava em 1994 continua lá, próximo da escada que desce para o refeitório, e pelas redondezas ainda circula Caju, famoso vendedor ambulante. O Pandiá, entretanto, mudou: ele nunca esteve ocupado por tanto amor.

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