Pensei bastante antes de escrever tudo isso. Mas depois de ver as estatísticas demográficas disponibilizadas pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral), foi inevitável chegar a essa conclusão. Olhando as cidades fluminenses e dos outros estados, são poucas as que chegam às proporções da nossa cidade co-irmã. Além de ter uma das maiores proporções de pessoas na faixa de renda mais alta, quase 50%, Niterói também é uma das cidades com maior proporção de eleitores com nível superior, com quase 30% da população, contrastando com os 2,5% gonçalenses. Num Brasil onde essa média é de 6,5%, dá para afirmar que Niterói é uma ilha.

O início das segregações naturais

A criação do nosso município se deu após uma emancipação. Até 1890, éramos uma parte niteroiense. Durante a primeira metade do século XX, muita coisa aconteceu por aqui, inclusive a implementação de várias indústrias, no áureo período da “Manchester Fluminense”.

Nessa época, Niterói era a capital do estado do Rio de Janeiro (não confunda com a cidade do Rio, o Distrito Federal). E lógico, como toda capital, concentrava vários serviços, especialmente os mais especializados que, por consequência, exigiam mais escolaridade. São Gonçalo, ao contrário, abrigou indústrias. E sabemos bem o que isso significa: empregos menos qualificados, focados em produzir para uma linha de produção. O Vila Lage é o retrato de uma época onde ainda se construía vilas para os trabalhadores.

Mas no meio do caminho, havia um JK. Juscelino Kubitschek criou Brasília, levando a capital federal para lá e esvaziando o Rio de Janeiro aos poucos. Anos depois, os governos militares integraram todo o estado, transferindo a capital estadual para o Rio. Deixaram Niterói órfã de toda a importância regional que tinha.

Era uma época onde muitas empresas não resistiam às diversas mudanças econômicas brasileiras. As indústrias que ficavam em São Gonçalo não escaparam disso. Niterói, agora ex-capital, via suas organizações indo para o outro lado da ponte. A importância do Leste Fluminense tornava-se apenas uma história.

Foto: O Globo
A principal porta de entrada dos ônibus que trafegam entre as cidades, o 2º maior fluxo de pessoas entre cidades brasileiras. Foto: O Globo

A fuga de talentos: trabalha lá? mora lá!

Aos olhos de quem teve e tem poucas oportunidades, as duas escolas que estudei em São Gonçalo eram consideradas “escolas da elite gonçalense”. De 1997 à 2003, estudei no Santa Teresinha e no Colégio MV1. Posso afirmar que boa parte das pessoas que convivi fariam parte desses 2,5% de eleitores com ensino superior na cidade.

Digo “fariam” porque muitos votam em Niterói faz tempo. Outros já transferiram seu título para o Rio. Sem falar naqueles que moram em São Paulo ou estão fora do país. Estudar, especialmente quando se tem nível superior, te faz buscar novos caminhos. E para nossa infelicidade, bem longe de onde moramos.

O tempo no transporte é um dos fatores principais dessa migração. Afinal, se todos morássemos a 15 minutos do trabalho andando seria uma bênção. Mas não é bem por aí. Quando a escolaridade avança, é natural que os salários também acompanhem essa evolução. Nessa movimentação, as pessoas buscam a tão falada qualidade de vida. Ficar 2, 3, 4 ou até 5 horas no trânsito começa a se tornar uma opção, não mais uma obrigação. E assim as pessoas vai saindo daqui.

Ainda sim, a maioria das pessoas continuam nessa “migração pendular”. Não à toa, o 2º maior fluxo de pessoas entre cidades no Brasil pertence a nós.

Note que os trabalhos mais qualificados não estão em São Gonçalo. Respeitando a lógica histórica que escrevi acima, eles se concentram no Rio e Niterói. O que faz com que as pessoas deixem a cidade, mesmo tendo carinho por ela.

Universidade Federal Fluminense, a UFF de Niterói
Universidade Federal Fluminense, a UFF em Niterói. Foto: André Redlich / O Fluminense

Educação: a chave da qualidade de vida

Niterói teve sua importância reduzida após a transferência da capital do estado. Porém, ficou a principal matéria-prima das cidades: pessoas. Famílias de maior poder aquisitivo viam na cidade a conjunção de várias coisas boas que se sobrepunham: uma vasta rede escolar, uma universidade pública de relevância nacional, como a UFF (Universidade Federal Fluminense), uma infraestrutura considerável e, até então, não tinham a violência da cidade do Rio de Janeiro.

Assim se transformou num pólo de atração para os mais abastados. Nos últimos 20 anos, com o lançamento do MAC e a promoção do caminho Niemeyer, a cidade ganhou ainda mais projeção no cenário nacional. Sem dúvidas, o ponto-chave que definiu essas transformações chama-se educação.

Ouvir que “educação é a solução” é enfadonho. É uma frase pronta de qualquer político ou palestrante. Mas para nós, saber que a co-irmã é a 7ª em qualidade de vida no Brasil não espanta mais. Niterói colhe os frutos que só a pressão política e social das cidades mais instruídas é capaz. Afinal, ter 30% de seu eleitorado com nível superior, num Brasil onde a média é 6,5%, faz da cidade uma ilha.

E se você acha que tudo são só elogios, engana-se. As desigualdades da cidade são fortes. Sem falar que o sentimento de superioridade, por conta da renda e instrução mais alta, também faz com que muita gente se sinta com o rei na barriga. Problemas de um Brasil que foi escravocrata há pouco mais de um século atrás. São os efeitos colaterais. O crime é um deles, e os bandidos também já perceberam que há muitas chances por lá.

Independente disso, fica o aprendizado: a educação estimula o desenvolvimento do mercado de trabalho, tornando-se a chave-mestra, a ponte para o futuro. Sem isso, definitivamente, nossos talentos gonçalenses vão continuar saindo da cidade, e nós continuaremos a acreditar que “ninguém fica aqui”, mesmo vendo o município inchar cada vez mais.

11 COMENTÁRIOS

  1. O texto ta excelente. Só preciso fornecer um adendo. Não se pode confiar nos dados do TSE para visualizar informações sobre nivel de instrução, principalmente para sg, pelo simples fato que ao se cadastrar na zona eleitoral,muitos aos 16, 17, 18 anos. Estariam no fundamental e médio. Não ha atuaçozação dessa informação a não ser que vá registar novamente. Para Niterói, os dados conferem por ter tido uma atualização devido a biometria da cidade… Abraços!!!!

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    • Oi, Wilson.

      Obrigado. Também pensei a mesma coisa antes. Entretanto, acho que os dados foram cruzados com as informações da PNAD. Como muitos não tem biometria, é muito possível que esse cruzamento tenha sido feito. Muita viagem minha?

      Mas o fato de Niterói, já com biometria, dar esse número, me espantou. Só achei mais uma cidade, que não lembro agora, que ultrapassava, chegando a 32%. Outras batiam na casa dos 20 e tantos porcento. Mas quase todas em SC e SP. Rio mesmo, Niterói é insular.

      Obrigado novamente, especialmente porque seus textos já estão servindo como referência para novos conteúdos.:)
      Abração.

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      • Infelizmente não tem como cruzar os dados da PNAD com o TSE por uma simples razão. Os dados da Pnad são amostrais e os do TSE é da população investigada. Niterói realmente ultrapassa os 30%! Os dados sobre instrução em SG estão um pouco melhores, mas são similares a Niterói na década de 90, acredita? Rapaz! quando eu vi uma referência fiquei lisonjeado! rssss abraços!!!!

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        • Entendi. Pensava que a PNAD fosse tipo o senso, batendo de “porta em porta”. Mas esse dado sobre Niterói ser igual a São Gonçalo nos anos 90 é surpreendente, o que mostra que Niterói fez uma boa propaganda para atrair toda essa renda para lá, pois crescer de um dígito para 1/3 quase da população em 20 anos não se faz com milagre. 🙂

          Sobre as referências, eu que agradeço essa rede que se formou (e ainda estamos formando) de gente produzindo conteúdo sobre a cidade e região. A meta é chegar a 1000 posts sendo a maior fonte de informações do Leste Fluminense. Será que a gente consegue? Acho que sim. 😀

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  2. Matheus, infelizmente a minha historia é parecida com a sua, todos meus amigos que se formaram ou melhoram de vida foram para cidade vizinha ou outras cidades pelo Brasil e exterior. Até mesmo eu fiquei dividido entre construir minha casa em um condomínio em São Gonçalo e comprar um apartamento na cidade vizinha, pesou muito na escolha a proximidade com a minha família e a da minha esposa todos moradores de São Gonçalo e Maricá. É triste para nós admitir que nossa cidade ficou para trás e não há perspectiva de melhora a curto prazo.

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  3. Tenho um exemplo desse ciclo dentro da minha casa, minha filha de 21 anos estudante de Biologia (adivinha aonde), pensa no futuro ir para lá como todos seus amigos da faculdade que moram em São Gonçalo e Itaboraí.
    Reverter esse quadro não é impossível, vide o caso de Maricá, que não somente retêm seus talentos, mas está atraindo vários outros inclusive de São Gonçalo, Niterói e Rio

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    • Verdade, Ronaldo. Exemplos de sucesso nós temos em várias cidades. Falta apenas a visão dos postulantes ao cargo. Infelizmente, no quadro atual, vejo 2 ou 3, no máximo, que tem essa visão. Pelo menos, o cenário já está apresentado aqui. Com bons projetos, as coisas funcionam.

      Obrigado por estar com a gente no SIM São Gonçalo!

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  4. Conheci o site pelo fb hoje. Estou gostando muito dos textos. Fico até triste por só conhecer agora. Entendo que é uma ferramenta muito interessante e importante para discussão de idéias sobre a cidade. Quanto ao nível de escolaridade de nossa vizinha, é facilmente visível através das práticas da população, além do êxodo dos mais qualificados, claro. Eu, apesar de ter chegado aqui aos 20 anos de idade, apesar do abandono da cidade, optei por fixar residência e gosto muito. Sofro com o trânsito e outras mazelas, mas junto com vocês, espero, vamos contribuir mesmo que só um pouquinho para melhorar a cidade. Se 70% da população aprender a fazer e fizer um pouquinho só, ficará bom demais.
    Parabéns pelos textos.
    Parabéns pelo “site”.

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