Amo a sujeira gonçalense

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Lixo no Porto da Pedra

Falta mais de um mês para o aniversário de São Gonçalo, comemorado dia 22 de setembro, quando escritores e cronistas locais publicam suas juras de amor à cidade. Este ano resolvi antecipar minha declaração e revelar um sentimento novo: meu amor pela sujeira gonçalense.

Já reclamei do lixo, da livre poluição causada pelas empresas e compartilhei dicas de reciclagem. De repente passei a amar São Gonçalo do jeito que ela é hoje. Pode trazer mais benefícios.

O bairro do Méier, no Rio de Janeiro, seria confundido com o Centro de São Gonçalo se o Centro não fosse tão mais sujo. E eu prefiro o Centro. Pelos copos de Guaravita e Guaracrac espalhados no chão, estimo o tamanho da população gonçalense melhor que o IBGE. Como ela é grande. Em diversos bairros temos a ideia de que houve uma festa na noite anterior, tamanha a quantidade de guardanapos dos salgados comprados e comidos na rua.

Amo as paredes descascando, pixadas ou enegrecidas pela fuligem que sai do escapamento dos veículos. Se passo embaixo de uma marquise e sou molhado por um vazamento que pinga do teto, isso me lembra que estou na minha cidade.

Em Alcântara, não me irrito mais com a fiação exposta dos gatos de energia elétrica que sai dos postes de luz e atravessa, por dentro das poças de lama e esgoto, o caminho dos pedestres. Sinto compaixão por quem fez o gato, por quem precisa dele e pena de mim mesmo por ter que pisar na fiação, correndo o risco de morrer eletrocutado.

Quando estou preso no trânsito, perdi a pressa de chegar em casa. Gosto de ficar ali, parado na Avenida Maricá ou na rua Manoel João Gonçalves, observando pela janela do ônibus o camelô, a mãe caminhando de mãos dadas com a filha pequena e o catador de papelão empurrando sua carroça, todos suando sob o sol.

Acabou o nojo que eu sentia ao passar no meio da noite em frente ao Kri Kri Lanches, bar que tem duas peixarias à esquerda e um açougue à sua direita, o trecho mais pestilento de Alcântara e de todo o município. Estou doido pra tomar uma cerveja barata lá, apesar das caixas de papelão sujas de sangue e dos pedaços de peixe misturados em sacos plásticos, e se quiser me acompanhar, por favor, entre em contato.

Claro que eu gostaria que São Gonçalo fosse limpa, mas a amo suja mesmo. Se amo por desespero, porque não posso mudá-la, porque me acostumei com a podridão, não importa. O amor sincero, que exige respeito e vontade de cuidar, não faz mal. Ninguém ama de verdade um lugar que não conheça, ao qual não pertença. Ruim seria morar há anos em São Gonçalo e não amá-la.

Só odeio uma coisa e não são os bandidos denunciados pelo Ministério Público Federal que continuam em exercício na Câmara de Vereadores. A única coisa intolerável que não encontra resistência em São Gonçalo é barricada na rua dividindo a cidade em duas.

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