A revolta dos camelôs: o que reflete o fogo de Alcântara?

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Protesto dos Camelôs em Alcântara - São Gonçalo

Terra de Malboro, terra sem lei. Essas são algumas das formas que as pessoas que não são daqui descrevem São Gonçalo. Para uma cidade que já foi potência industrial no passado, é humilhante conviver com esses adjetivos. A melhora está numa pergunta: como estabelecer a ordem?

Estamos em março de 2015. Brasil pega fogo. Alcântara também!

Manter a ordem, a lei e as boas práticas de convivência ainda são mistérios por aqui. Para um povo que aprendeu a ganhar tudo “na marra”, “resolvendo na mão” e “na força”, conversa e diálogo parecem palavras de outro mundo. Não se trata de educação escolar. É familiar! Afinal, respeito se aprende em casa.

Falando de convivência em sociedade, São Gonçalo vive uma realidade difícil. Como boa parte das cidades cheias e pobres do país, quando se trata de impedir o “livre arbítrio” daquilo que prejudica o outro, o simples fato de pedir pode se tornar uma agressão. E como sabemos, pedir ao camelôs que desobstruam as calçadas, se não for muito bem conversado e acordado, pode dar nisso aí. Veja:

Comentando os comentários dos gonçalenses

Abaixo, seguem alguns comentários feitos sobre o vídeo. Minha intenção é mostrar os dois lados interpretados por quem não está na história, como eu e você, que talvez também não trabalhe como ambulante. Depois de cada um, comentarei:

“Os caras não se cansam de esculachar trabalhador. Aí reclama quando a criminalidade aumenta. E agora, como essas pessoas vão sustentar suas famílias? Tem q parar tudo mesmo.” – Usuário A no Face.

Infelizmente, isso é uma realidade. Sim, muitos guardas, policiais e fiscais de postura agem como se tivessem o “rei na barriga”, como diria minha avó. Esses pequenos grandes poderes contra os ambulantes só geram animosidades.

“Roubar pode, trabalhar não.”– Usuário B no Face.

Um dos argumentos mais frágeis que a população repete sem parar é esse. Para ela, o que a ordem pública quer fazer é atrapalhar o trabalho dos outros. Mas, fica a pergunta: e aquela calçada cheia de ambulantes que atrapalham idosos, cadeirantes, deficientes físicos e pessoas comuns de transitarem nas ruas, isso pode?

“A questão não é que camelô quer trabalhar, camelô quer trabalhar do jeito que ele acha conveniente. Camelô quer colocar uma barraca em frente a uma loja que paga uma caraleada de impostos e fechar as fachadas das lojas, dos estabelecimentos, fizeram um local exclusivo pra eles, eles não aceitaram no Vila 3. Começaram a construção de um camelódromo na rua da igreja, eles simplesmente bateram o pé e falaram “Não adianta fazer que nos não vamos” e assim por diante. Eles querem trabalhar, mas querem da maneira que lhes convém.” – Usuário C no Face.

Isso, infelizmente, ainda é uma realidade. Por mais que a prefeitura deseje reorganizar os camelôs em outro local de trabalho, a disputa do espaço urbano é problemática. Como os lojistas, os trabalhadores ambulantes sabem que a mudança do ponto pode gerar drásticas quedas nas vendas. No bom português das ruas, o camelô dirá: “Vou mudar de lugar? Pra que?  Aí, eu não vou vender porra nenhuma, né!” 

Fiscais verificam os documentos do ambulante legalizado em Alcântara. Foto: Julio Diniz / Ascom - Prefeitura.
Fiscais verificam os documentos do ambulante legalizado em Alcântara. Foto: Julio Diniz / Ascom – Prefeitura.

Como resolver a situação?

Reforma urbana. Isso mesmo, você não leu errado. Reforma urbana. Essas palavras parecem utópicas em São Gonçalo, ainda mais na conturbada Alcântara. Mas, já adianto: impossível não é. Ou será que aquela cagada, ops… shopping que a prefeitura anterior autorizou no ponto final do ABC surgiu ali do nada? Alguém quis contruí-lo. E, com certeza, quem quis sabia que ali era rentável.

Alcântara é o centro comercial de São Gonçalo. A reforma é mais do que necessária: é imprescindível. Ali é um epicentro de problemas, inclusive o Rio Alcântara que tornou-se uma grande lixeira com o crescimento da cidade.

A população e os órgãos civis protestaram, mas o shopping foi contruído, danificando a dinâmica do espaço urbano. Quando são os camelôs, é passado o rolo compressor.
A população e os órgãos civis protestaram, mas o shopping foi contruído, danificando a dinâmica do espaço urbano. Quando são os camelôs, é passado o rolo compressor.

Outra questão fundamental é capacitar todos os camelôs, fazendo-os entender a importância da regularização e da formalização. Com o crescimento do pagamento eletrônico, via cartões de débito e crédito, as transações comerciais das microempresas, como os ambulantes, são fundamentais para que esse novo universo comercial aflore em São Gonçalo de forma consistente.

Porém, enquanto a prefeitura não propor uma nova reorganização, conversando com todos os comerciários da região, inclusive os camelôs, captando recursos para tal, será impossível o desenvolvimento da cidade. Sim, impossível!

Depois dessa confusão, o que resta é a desordem e a sujeira na cidade. Sem falar nos cidadãos que não conseguiram chegar aos seus destinos por causa dos protestos que deixaram o trânsito fechado. Ódio gera ódio.

Em São Gonçalo, a falta de amor e má educação são refletidas no fogo que ilumina e enfumaça os protestos dos camelôs. Certamente, o efeito será o mesmo nos que ainda acontecerão no Brasil de 2015.

Foto destaque: Mayara da Silva Decothé

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