José Luiz Nanci tem lixo na cabeça

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Pessoas remexendo o lixo dentro do caminhão coletor no Centro de São Gonçalo
Na cidade com baixo saneamento básico, os mais abastados tem o mesmo problema que os mais pobres: o contato frequente com o lixo, que segue sem soluções definitivas. Foto: via Twitter.

São Gonçalo é uma cidade de ruas imundas. Papéis, copos plásticos e papelão se embolam nas poças de esgoto das sarjetas. Pilhas de lixo doméstico, de lojas, lanchonetes e supermercados crescem em volta dos postes de luz, nas esquinas e nas calçadas por onde os gonçalenses tentam passar.

Há 17 anos, a Marquise Ambiental, empresa de coleta que presta esse serviço horrível, é sustentada sem licitação, através de contratos corruptos. Ela é frequentemente investigada por irregularidades no serviço. Como se a sacanagem não fosse suficiente, José Luiz Nanci, o prefeito, com a aprovação da maioria esmagadora dos vereadores, aumentou a taxa de coleta de lixo da cidade.

Pilha de lixo só cresce na cidade. A imagem reflete o que está acontecendo no Vila Lage, Covanca e Barro Vermelho.

Aumento na taxa de lixo não justifica o serviço

Lurdinha acorda às 6h e prepara o café da manhã olhando o carnê do IPTU sem pagamento, imóvel, sobre a mesa da cozinha. Há relatos de reajustes de até 500% na taxa de lixo deste ano, cobrada junto com o IPTU (O Globo). O carnê deixa Lurdinha angustiada, ela não sabe como arranjar dinheiro pra pagar.

Depois de deixar o filho com a mãe, por causa das férias escolares, Lurdinha vai pro trabalho. Antes ela pega com a mão quatro sacolas de lixo. É o lixo dela e dos vizinhos que não têm lixeira. Lurdinha pega as sacolas fedorentas e úmidas e joga dentro de uma caixa d’água na esquina mais próxima de casa. A rua dela está bloqueada por uma barricada do tráfico de drogas e o caminhão da coleta, quando passa fazendo o serviço, não pode entrar na rua.

Com a mão fedendo, Lurdinha anda até o ponto de ônibus. No caminho ela vê mais pilhas de lixo na frente das casas, igrejas e padarias. No ponto de ônibus, ao lado de um valão, ela encontra mais lixo, lixo e mato pra todo lado. Caixas, copos de guaraná e guardanapos usados. Sentindo nojo, Lurdinha prefere não se sentar no banco sujo, enferrujado e quebrado do ponto de ônibus.

Também imundo, quente, sem ar-condicionado, o ônibus chega. Não tem lugar pra sentar. Enfrenta um engarrafamento desesperador de pé. Por falta de planejamento e investimento em mobilidade urbana, o trânsito de São Gonçalo está quase tão ruim quanto o de São Paulo, mas o Produto Interno Bruto das cidades são bastante diferentes.

No fim do expediente, Lurdinha sai do trabalho desviando das pilhas de lixo na calçada, bem na porta da empresa, e anda até no asfalto, disputando espaço com os carros e correndo o risco de morrer, pra chegar até o ponto de ônibus e voltar pra casa. Cada sacola de lixo no chão é uma ofensa.

Ela desce do ônibus no ponto mais próximo de casa. Já é noite. Pula uma vala de esgoto, quase cai e alcança a calçada suja que cruzou de manhã. O fedor invade seu nariz e ela quase cai de novo. O lixo visto no início do dia continua nos lugares de sempre.

Desviando e pulando, Lurdinha pega o filho na casa da mãe. Na primeira e última esquina que Lurdinha passa, a caixa d’água transborda de lixo e o mato cresce em volta da barricada, de tão velha. O caminhão só recolhe o lixo duas vezes na semana, quando não falha.

A lixeira de Lurdinha está cheia de novo na manhã seguinte. As sacolas estão sujas de caldo de feijão. Uma mão segura a do filho, a outra segura as sacolas pra jogar dentro da caixa d’água na esquina, antes de seguir para o trabalho. O carnê do IPTU exorbitante ficou na mesa da cozinha, sem pagamento.

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