Na sexta-feira, 10 de novembro, o policial militar Joubert dos Santos de Lima, 26 anos, foi morto durante um confronto na comunidade do Brejal, aqui em São Gonçalo. Naquele momento, ele se tornava o 117º PM assassinado no estado do Rio de Janeiro em 2017. No mesmo minuto, o destino de outras sete pessoas havia sido selado.

No dia seguinte, a polícia civil aliada aos militares do exército invadiram o, agora conhecido, Complexo do Salgueiro. Alguns dizem que vieram dos céus. Outros, que foi por dentro da mata. Seja como tenha sido, interromperam o baile da comunidade, dizimando 7 pessoas. Após o ocorrido, entretanto, nenhum dos órgãos assumiu a autoria do crime.

Protesto na BR-101 em São Gonçalo. Foto: Divulgação/O São Gonçalo

É bom lembrar que dias antes, em 7 de novembro de 2017, as forças de segurança fizeram uma megaoperação dentro do bairro. Até aquele momento, nenhum dos chefes do tráfico foi pego. A população, no geral, questionou se aquela ação era apenas um teatro. Poucas horas depois, já era possível ler relatos desacreditados na segurança pública do Rio de Janeiro. Algumas pessoas, inclusive, sugeriam que a polícia chegasse de surpresa.

Até que no sábado, a sugestão foi executada.

São Gonçalo se tornou peça-chave no jogo da (in)segurança pública

Se tem algo que falamos no SIM São Gonçalo há tempos é que nossa cidade está no tabuleiro do jogo. O Salgueiro fica num ponto estratégico da Baía de Guanabara. E já há relatos de que a droga que chega por ali é distribuída para vários pontos do estado do RJ.

Nada disso é segredo para ninguém. Inclusive, há pouco tempo atrás, os próprios traficantes ostentavam armas navegando em seus barquinhos pela baía.

Lembra dessa foto? Traficantes ostentam armas na Baía de Guanabara em frente ao Shopping da BR em São Gonçalo.

Por maior que seja seu poder bélico, é praticamente impossível resistir ao poderio técnico das nossas forças de segurança. Salvo por um motivo: território. Há Google Maps, Street View, satélites da Nasa, mas nada substitui a presença em terra.

Analisando as ocorrências da última semana, tentamos entender a atuação da polícia e exército integrados. No primeiro dia (07/11), mesmo aparentando ser um teatro, a ação foi fundamental para conhecer a região, explorando os detalhes territoriais. Depois disso, ficou fácil fazer o serviço.

Imagino que as ações em São Gonçalo sejam cada vez mais controladas e executadas. Afinal, além da Baía de Guanabara, temos a BR-101, uma importante via de escoamento de produtos. Inclusive, é nela que os roubos de cargas e arrastões se concentram.

Militares caminham no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio. (Foto: Reprodução/ TV Globo)

População revoltada dá carta branca. Mas “o policial não puxa o gatilho sozinho”

A clássica fala do personagem Capitão Nascimento faz cada vez mais sentido. Com um número ímpar de assaltos e furtos a carros, pedrestres, latrocínios e assassinatos, é natural que a população se sinta acuada e vitimada pelos marginais.

Em todas as redes e conversas nas ruas, a legitimação às ações da polícia e exército ganham coro. Consequentemente, o crime organizado se espalha pelas cidades fluminenses e, com ações coordenadas, se reintegra, recrutando novos soldados para o tráfico.

A revolta das pessoas é legítima. Mas veja bem: os estrategistas que trabalham na segurança pública brasileira têm em seus estudos de caso um emblemático: CARANDIRU. O massacre de 111 presos que foram mortos naquele dia iniciou uma movimentação entre os encarcerados. O resultado foi a criação do Primeiro Comando da Capital, também conhecido como PCC.

O PCC pratica um crime muito mais organizado que o ocorrido no Rio de Janeiro. Em São Gonçalo, por exemplo, a participação dos “crias” da comunidade é fundamental. As ações não são tão coordenadas quanto se pensa. E chegamos ao ponto mais absurdo de todos: em todo o Rio, a Polícia Militar tem de intervir para que as facções não entrem em guerra.

Mas o ódio, que não para de crescer, alimenta algo que passa longe dos quartéis ou das bocas de fumo: os políticos oportunistas.

Policiais mortos ou bandidos dizimados: onde estão os direitos humanos?

Uma das coisas mais deploráveis que vemos atualmente são os políticos oportunistas.

Para aparecer, se posicionam nos extremos. Rivalizam mortes policiais, tão alardeadas e comentadas em todo o país, com mortes dos bandidos. Estimulam o medo e fazem com que as pessoas acreditem seriamente que ninguém olha os PMs, em benefício dos bandidos.

No outro extremo, políticos desonestos se posicionam contra a PMERJ – Polícia Militar do Rio de Janeiro – como se todos fossem corruptos e homicidas. Em ações como essa, que aconteceu no Salgueiro, mesmo sabendo do foco de bandidos na região e da ação necessária das forças de segurança, criticam as ações que resultaram nas mortes dos meliantes. Cinicamente, usando os valiosos direitos humanos, deixam o cenário ainda mais confuso.

Por consequência, a nossa população, seja por carência de instrução, educação deficiente ou pela legítima sensibilidade ao medo que nos assola nas ruas, acaba se sentindo na necessidade de “escolher um lado”.

Michel Temer posa com alunos do Centro de Educação Física Almirante Adalberto Nunes, na Penha – Rio de Janeiro.

O único lado a se escolher é o da melhora nas condições do território e educação

E para fechar a semana com chave de ouro, tivemos esse anúncio do presidente Michel Temer. Segundo o governo, o Complexo do Salgueiro será beneficiado pelo Programa Emergencial de Ações Sociais. O projeto prevê investimentos na ordem de R$157 milhões de reais para “atividades esportivas, culturais e de tecnologia com o intuito de prevenir a violência na região metropolitana do Rio.”

Mas, peraí: e as condições de vida no território? E o dinheiro escasso para resolver a questão do lixo? E o saneamento básico deficiente na região? Por que será que os repasses para esse tipo de obras não estão disponíveis?

Parece que nosso destino é continuar perdendo tempo. Enquanto isso, novos garotos revoltados, mesmo vendo seus amigos morrerem todos os dias, continuam se tornando soldados do tráfico. Achando que é normal morrerem como moscas, matam a si próprios e aos outros que, sob os olhos de Deus, continuam sendo seus irmãos. Nós.

Em 2017, o código de Hamurabi está de volta. E num momento de falta de comando, não se surpreenda se novas ações de limpeza acontecerem nos próximos meses. E mais: a população vai agradecer.

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