A crise do Estado do Rio e o fundo do poço infinito

1965
A crise do estado do Rio e suas consequências para São Gonçalo

Há poucos anos atrás, as promessas geradas pelo petróleo transformaram o estado do Rio de Janeiro num el dourado nacional. Com tantas coisas diferentes acontecendo ao mesmo tempo, teve gente acreditando que estávamos num “novo ciclo”. COMPERJ, EBX, PETROBRAS são nomes que não saíam da mídia. Junto disso tudo, a capital foi aprovada para sediar as Olimpíadas. Os preços dos imóveis na capital fluminense dispararam. Como são uma referência regional, elevaram os valores das casas também em São Gonçalo, Niterói e toda região metropolitana.

Os efeitos da “falsa valorização” ficaram fixados na mente das pessoas. São Gonçalo teve seu custo de vida sensivelmente elevado. Regiões com o mínimo de facilidades em infraestrutura na cidade tem aluguéis e condomínios caros, algumas vezes equivalentes à sua vizinha, Niterói. Isso sem falar na velha questão do transporte. Salvo os ônibus da Coesa, o restante parece que parou no tempo. Quando entro no 12, por exemplo, parece que volto no tempo.

Agora, o governador atual, Luiz Fernando Pezão, disse que estamos, mais uma vez, à beira da falência. Mas, será? Se pensarmos um pouquinho mais a fundo, veremos que estamos falidos há muito tempo. Como o estado não fali, parece que os falidos somos nós.

Trabalhadores do Comperj caminham sobre a ponte Rio-Niterói para denunciar os atrasos nos pagamentos.
Trabalhadores do Comperj caminham sobre a ponte Rio-Niterói para denunciar os atrasos nos pagamentos.

Origens do “Rio”

A consolidação do que chamamos de “Rio de Janeiro” vem de 1763, quando o Marquês de Pombal transferiu a capital de Salvador (Bahia) para o Rio por questões simples: éramos o lugar mais perto das jazidas de minérios e metais de Minas Gerais, com uma Baía de Guanabara perfeita para receber os navios. Uns 45 anos depois, a corte portuguesa chegava para mudar de vez nossa situação perante o país. Sendo simplório, esses 2 fatos resumem praticamente tudo o que somos hoje.

Para não ser relapso, tivemos um momento de prosperidade no Vale do Paraíba, com uma das maiores produções mundiais de café. Porém, depois que corrigimos uma “pequena injustiça” abolindo os escravos, esse negócio ruiu, migrando para São Paulo.

São Gonçalo, Niterói, Caxias, Nova Iguaçu, todas as cidades da região metropolitana e, porque não, Petrópolis, foram diretamente beneficiadas por toda essa centralização do poder no Rio, que por consequência também concentrou o dinheiro. Depois de JK, com a transferência de Brasília, demos adeus à mamata do dinheiro fácil. Ainda ficaram muitas estatais por aqui, entre outros mecanismos que deixaram o Rio como um ponto focal no Brasil. A Globo e suas novelas que vendem o “sonho carioca de ser” atraíram ainda mais gente de outros lugares para cá.

Rota do Ouro que trazia os metais preciosos de Minas Gerais para o Rio de Janeiro.
Rota do Ouro que trazia os metais preciosos de Minas Gerais para o Rio de Janeiro.

Pensando a fundo, o que produzimos de verdade?

Até que nos anos 9o, a indústria do petróleo deu vida nova à uma triste cidade de Campos, que no passado foi grande plantadora de cana e produtora de açúcar. Macaé, Casemiro de Abreu, São João da Barra, Quissamã, Rio das Ostras entre outras cidades do estado maravilharam-se com as facilidades do dinheiro direto na mão. Nos tornamos, novamente, monocultores. Agora, de óleo e gás.

Nesse embalo, no meio do caminho, prometeram uma “mega-ultra-master” refinaria de petróleo em Itaboraí. Aquilo chamado “COMPERJ”. Resultado? Prometeram A e vão entregar Z.

Como tudo na vida passa, cá estamos nós, novamente, assistindo à queda do petróleo, um produto que aos poucos será substituído por novas matrizes energéticas no mundo. Então, o que nos espera em 30 ou 40 anos?  O que o Rio de Janeiro será? E mais: o que nossas cidades metropolitanas, São Gonçalo nesse bolo, produzem ou produzirão para receber recursos e melhorar a infraestrutura regional?

Bonde no Zé Garoto, São Gonçalo
Instalação da rede de bondes em São Gonçalo. Época em que a cidade era um potencial distrito industrial e, aos olhos dos investidores externos, valia a pena investir nela.

Porque existe um fundo do poço infinito

Há algum tempo, o Rio de Janeiro caiu num poço infinito. O estado tem uma população muito grande e não consegue gerar renda suficiente para manter toda essa estrutura. Com o Petróleo em baixa, nossa única fonte de renda “certa”, via commodities, não consegue mais sustentar os pilares econômicos que nos mantém. Porém, com a 2ª maior região metropolitana do país, mesmo não se bancando, o Rio é alvo de todos os políticos e empresários nacionais e internacionais. O que, naturalmente, força o governo federal a “investir” constantemente no estado.

Estamos vivenciando um exemplo perfeito nesse final de 2015 e início de 2016. O estado não tem dinheiro para pagar seus servidores e terceirizados. Entretanto, poderá pedir dinheiro ao governo federal para custear as obras finais das estruturas olímpicas que se comprometeu a fazer no passado recente. A população, com razão, nunca entenderá isso. E, infelizmente, o estado também não ajuda a explicar.

Minha impressão é que assistimos ao cachorro correndo atrás de sua própria cauda. Como o Rio é o “palco do Brasil”, é possível que outras situações como essa continuem acontecendo.

A crise do Estado do Rio é permanente. Somos um dos maiores mercados informais (sem carteira assinada) do país. Em contrapartida, temos uma forte indústria criativa e cultural acontecendo por aqui. Seria essa crise constante o motivo de sermos tão criativos?

Bem, se permanecerá por muito tempo, não sabemos. Mas, certamente, ainda não estamos preparados para os novos modelos de geração de valor, especialmente por nossa deficiência educacional. Precisamos instruir nossa população de forma a criar menos “operadores” e mais inventores e produtores. Já melhoramos muito, mais ainda há espaço para, um dia, achar o fundo desse poço e descobrir que há uma mola por lá, que nos fará subir para um lugar que nem sabemos se ainda será nosso.

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