As duas mortes de Francisco

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As duas mortes de Chico Mendes

Posso dizer com todas as consoantes e vogais que sou realmente um cara azarado. Não bastava me tirarem a vida uma semana após completar 44 anos, na minha querida cidade do Acre. Tempos depois de sepultado, fui novamente morto, lá no estado do Rio de Janeiro, em uma cidade chamada São Gonçalo.

Para que o leitor me conheça melhor, vou contar um pouco da minha vida.

Meu nome de batismo é Francisco Alves Mendes Filho. Mas pode me chamar de Chico. Fui íntimo para milhares de pessoas, porque não ser íntimo para você, amigo leitor.

Nasci no Acre. Brasileiro e me orgulho disso. Afinal, como diz o dito popular, não desisto nunca e sempre foi assim até a hora da minha morte. Poderia ter nascido boliviano, já que até o século XX o Acre pertencia à Bolívia. Graças à luta dos migrantes nordestinos brasileiros, grande maioria cearense, incluindo com muito orgulho meus pais que chegaram para tentar a vida como seringueiros, esse pedacinho de terra passou ao Brasil através do Tratado de Petrópolis, intermediado pelo então ministro do exterior, o Barão do Rio Branco. Afirmou-se ali que, por 2 milhões de libras esterlinas, parte do território do Mato Grosso e o Acre ficariam de vez com o Brasil. Mas como o assunto não é a minha cidade natal e sim a minha vida, vou continuar a história sobre como acabei morto por duas vezes.

Minha vida não foi fácil. Quando criança, me embrenhava na mata para acompanhar meu pai. Ele era um grande homem e um excelente profissional. Com a dedicação de um professor, me passava cada detalhe sobre o oficio de seringueiro. Olhava para ele com muita ternura e não saia da minha cabeça que quando crescesse seria igualzinho a ele.

Chico Mendes

Não tive oportunidade de me alfabetizar como uma criança normal de seis ou sete anos. Não tínhamos escolas e os donos de terras não tinham o menor interesse de criá-las, pois quanto menos estudo, mais dependentes ficávamos. Com isso, só aprendi mesmo a ler quando completei os meus 20 anos. Essa conquista só foi possível com a ajuda de um grande amigo, Euclides Távola, que não só me ensinou a ler e a escrever, como despertou o meu interesse pelo destino do planeta e da humanidade. Um militante comunista que participou ativamente no levante comunista de 1935, em Fortaleza, e ainda na Revolução de 1952, na Bolívia. Nunca mais o veria em vida, desde o golpe militar de 1964, mas aquele homem mudou a concepção da minha vida e a educação passou a ser minha obsessão. Queria que todos os companheiros de trabalho aprendessem a ler e a escrever para não serem roubados nas contas do patrão. Cem homens sem instrução fazem uma rebelião. Um homem instruído é o começo de um movimento.

Minha liderança aflorou mesmo aos meus 31 anos de idade quando cheguei a secretário dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia, presidido por Wilson Pinheiro, grande responsável pela minha veia ativista. Comecei a participar intensamente das lutas dos meus companheiros seringueiros para impedir o desmatamento da Amazônia. A união sempre fez a força e cada companheiro contribuía fielmente na causa. Éramos uma só família que de mãos dadas impedíamos as máquinas de destruir nossa floresta. Homens, mulheres, crianças e até vovozinhos davam suas vidas pela floresta. Chamávamos de “EMPATES”. A floresta sempre foi a nossa sobrevivência e de lá ganhamos o pão nosso de cada dia.

Em 1985, o nosso movimento, definitivamente, criava corpo. Fizemos o primeiro Encontro Nacional dos Seringueiros. Criamos o Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS) e uma proposta que garantia defender os interesses e direitos dos habitantes da floresta por meio da criação de reservas extrativistas. A “União do Povo da Floresta” viria para ajudar não só a nós seringueiros, mas indígenas, castanheiros, pequenos pescadores, quebradeira de coco babaçu e a população ribeirinha.

Nossa causa chamou a atenção do mundo e membros da ONU nos deram o prazer da visita em nossa Xapuri. Puderam acompanhar de perto a devastação da floresta e a expulsão dos nossos companheiros por projetos financiados por bancos internacionais. Essa visita me encheu ainda mais de coragem e procurei o senado norte-americano para afirmar a denúncia. O financiamento desses projetos foi interrompido e ganhamos essa batalha. Essa coragem me proporcionou vários prêmios internacionais, mas acreditem leitores, no Brasil fui acusado por fazendeiros e políticos de prejudicar o progresso. 

Vê se pode! Eu não lutava contra o progresso. Precisamos de empregos e desenvolvimento, mas de um jeito que não nos mantenha pobres. Passar por cima da nossa gente nunca, nem morto!

Por falar em morto, chego ao momento do texto onde tenho que falar sobre como me tiraram a vida. Tenho certeza que essa morte doeu mais no mundo do que em mim mesmo. O leitor nunca teve essa experiência com a morte, não é? Claro, pois se tivesse não estaria passeando por esse texto. Vou te falar meu amigo, é como se fosse alguém desligando um interruptor. De repente, tudo se apaga.

Já tinha recebido ameaças de morte outras vezes, mas elas aumentaram quando batemos de frente com o fazendeiro Darly Alves da Silva, que decidiu desmatar o seringal Cachoeira. O seringal já tinha sido desapropriado para a criação de uma reserva extrativista. Sem pensar duas vezes, liderei meu povo e fizemos o “empate” no terreno. Denunciei que estava sendo ameaçado por Darly e um mandato de prisão chegou a ser emitido. Mas o malandro fugiu antes do mandato chegar. Dias depois, quando saia de casa para tomar meu banho, fui surpreendido na porta dos fundos da minha casa com um tiro de escopeta no peito. E aí, veio a escuridão.

Minha morte fortaleceu não só a nossa luta pela floresta amazônica, mas meu nome virou sinônimo de proteção ao meio ambiente e biodiversidade. Eu renasci em várias formas de homenagem. Renasci em forma de institutos, praças, avenidas, escolas e muitas outras pelo mundo.

Fiquei muito feliz com cada homenagem, mas uma em especial mexeu comigo. Aconteceu lá no Rio de Janeiro, para ser mais preciso, na cidade de São Gonçalo, em outubro de 1992. Momento que o mundo dava mais um passo rumo à consciência ecológica. Coincidência ou não, ano da ECO92.

Nascia uma praça, a Praça Chico Mendes. Nenhuma família precisou ser desapropriada, o espaço utilizado era justamente o espaço onde passavam os trilhos de ligação para Estação Raul Veiga, da saudosa Estrada de Ferro Maricá. Importante para economia da cidade e até do Brasil. Nela passava uma grande parte das laranjas que eram exportadas para os gringos.

Voltando à praça, foi toda arborizada, tornando o lugar bem arejado para as famílias que frequentavam, aproveitando aquele espaço o verde da cidade. Possuía uma quadra onde os adolescentes podiam praticar seus esportes favoritos. Como era bom apreciar aqui de cima a galera do basquete treinando os arremessos. Bem cedinho, os vovôs e as vovós utilizavam a quadra para se exercitar ao som de música ritmada, sobre a orientação de uma linda e sarada personal. Desculpe-me leitor, morri, mas o instinto de homem falou mais alto. Era de ficar de queixo caído admirando as manobras radicais da galera do skate na única pista da cidade. 

As duas mortes de Chico Mendes

Praça Chico Mendes, a "praça da Bíblia" pelos governos anteriores. Foto: Alex Wolbert
Praça Chico Mendes, a “praça da Bíblia” pelos governos anteriores. Foto: Alex Wolbert

A praça era frequentada por várias tribos diferentes em perfeita harmonia. Ela durou exatos 20 anos, quando o povo de São Gonçalo elegeu uma prefeita que cismou com a coitada da praça. Queria porque queria que o nome fosse substituído para Praça da Bíblia. Eu não fiquei chateado com o nome, afinal ser substituído pelo livro sagrado é uma honra pra mim, mas aquela senhora de cabelos vermelhos, tipo o do Curupira, foi além.

A quadra e a pista de skate sumiram definitivamente. Em seus lugares, foram colocadas estruturas metálicas formando alguma coisa que sinceramente não sei explicar. Bom, vou tentar narrar aos olhos do arquiteto que criou essa maravilha da arte contemporânea. Se Niemeyer desse uma voltinha em São Gonçalo e visse essa obra rasgaria o diploma de tanta raiva. “Ao adentrar nos portões da suntuosa Praça da Bíblia, os senhores avistarão um chafariz lindíssimo que representa a água da vida. Andando mais um pouco, os senhores passarão por uma estrutura metálica com painéis que representam o velho testamento. No final, olhando para cima, uma grande cúpula representa o útero que dá a vida. E, finalmente, os portões representam a saída do mundo ocidental.”

As duas mortes de Chico Mendes

Água da vida, útero, portões para saída do mundo ocidental? Viajou! Isso lá no Acre tem nome: maconha, muita maconha!!! A realidade de quem vê é uma praça triste, com um chafariz que não tem água, uma estrutura metálica que já se encontra enferrujada e painéis que não existem mais, pois voaram como pipas. Os portões nunca foram abertos desde a sua inauguração em dezembro do ano passado. E tudo isso com uma verba de 2 milhões de reais. Com dois milhões de reais eu compraria o Acre todinho para mim.

As duas mortes de Chico Mendes

E esse foi um pedacinho da minha história. Tenho certeza que muitas homenagens terei pela frente. No coração de cada gonçalense, estarei presente para sempre.

Aqui jaz Chico Mendes. Ex-seringueiro e ex- praça.

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Nascido lá do outro lado da poça no bairro da Penha. Criança começou a se interessar por tecnologia e quando não dava curto na casa dos pais, ajudava a vizinhança e familiares consertando um rádio aqui uma TV ali. Formou-se em tecnologia pela UERJ, casou-se com a guerreira niteroiense Aline Lucas e mudou-se de mala e cuia para São Gonçalo com a sua filha Victoria. Apaixonado por história, ação social e principalmente pela cidade de São Gonçalo, começou a escrever crônicas para diversas mídias. Hoje divide seu tempo entre empresário de Tecnologia da Informação e o Projeto Recicla Leitores (www.reciclaleitores.com.br), um projeto de incentivo a leitura que toca junto com a sua família.

Alex Wölbert também faz parte do grupo de colunistas que escrevem sobre Patrimônio Leste Fluminense para o Jornal Extra – Mais São Gonçalo.

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