O sol nasce na sujeira de Santa Isabel

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O sol nasce na sujeira de Santa Isabel

Passando pelo viaduto de Alcântara no horário do nascer do sol, algo banal me surpreendeu e, ao mesmo tempo, me deu esperanças de ver São Gonçalo livre dos males causados por prefeitos corruptos. O sol nasce no bairro mais subestimado, sujo e abandonado da cidade. O sol nasce em Santa Isabel.

A luz não vinha pela rua Dr. Alfredo Backer, parte do eixo que leva à Prefeitura Municipal e à Câmara de Vereadores, centros do poder público. Sua origem não era nenhum dos sentidos da Rua Manoel João Gonçalves, ligação com os bairros Coelho e Laranjal. Iluminando as sacolas de lixo largadas nas calçadas, no início da manhã a luz solar passa pelo Barracão, Sacramento, Pacheco e Amendoeira e caminha pela Estrada Raul Veiga em direção ao restante da cidade.

Todos se lembram, menos eu, que o sol nasce no Leste. Santa Isabel deve ser o maior bairro em extensão territorial do município e vence a disputa pela região Leste com o Largo da Ideia.

Como os outros bairros do distrito de Ipiíba, Santa Isabel nunca ganhou a atenção que merece. É a periferia dentro de uma cidade quase toda periférica, à margem da vizinha famosa, Niterói, e do Estado do Rio de Janeiro no quesito desenvolvimento social.

Bairro rural tão esquecido que a grafia do seu nome ninguém sabe ao certo, Isabel, como escreve a Prefeitura, ou Izabel, como escrevem os jornais, nas esquinas de Santa Isabel os porcos compartilham as pilhas de lixo doméstico com cavalos, urubus, pombos, bois e cães ao mesmo tempo, como amigos dividem uma mesa de bar. O lixo é um problema municipal grave, mas em nenhum outro bairro ele prejudica a fauna.

Faltam saneamento básico, infraestrutura, cultura, lazer e respeito à população. A festa da Independência, que mobilizava os alunos das escolas do bairro há 15 anos, foi cancelada por falta de segurança (O São Gonçalo). No final da festa do ano passado, um guarda municipal foi baleado e outro foi atropelado por traficantes; o cancelamento do desfile entristeceu as crianças.

Não significa que em Santa Isabel não sobre nada de bom. Quando o ônibus da linha 01 chega ao ponto final, surgem as fazendas e o asfalto, o comércio e a podridão terminam. São Gonçalo começa ali, virgem.

O bairro tem trilhas exploradas de moto e a pé por praticantes de esportes radicais. Tem a água pura e gelada que pinga do teto das Grutas de Caulim. O Alto do Gaia, ponto mais alto de São Gonçalo, com 534 metros de altitude. Santa Isabel tem o verde das árvores e a paz que o centro urbano desconhece.

Acorde em qualquer lugar de São Gonçalo, pouco antes das 6h, e observe. A principal fonte de energia da vida na Terra nasce logo em Santa Isabel, gigante esquecido.

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