Fernando Bittencourt https://simsaogoncalo.com.br/author/fernandobittens/ A revista da 16ª maior cidade do Brasil – São Gonçalo, Rio de Janeiro Sat, 22 Aug 2020 15:55:37 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.8.2 https://simsaogoncalo.com.br/wp-content/uploads/2016/07/cropped-sim-sao-goncalo-900-32x32.jpg Fernando Bittencourt https://simsaogoncalo.com.br/author/fernandobittens/ 32 32 147981209 Animais abandonados, de quem é a responsabilidade? https://simsaogoncalo.com.br/animais-abandonados-de-quem-responsabilidade/ https://simsaogoncalo.com.br/animais-abandonados-de-quem-responsabilidade/#comments Mon, 07 Aug 2017 15:51:36 +0000 https://simsaogoncalo.com.br/?p=4932 Virou rotina andar pelas ruas de São Gonçalo e passar por animais abandonados. Eu, por exemplo, assistia pela janela do carro e sentia bastante pena. Sentimento este, que não serve para nada, a não ser, esboçar mentalmente uma desculpa pela minha falta de iniciativa em ajudar os animais. LEIA TAMBÉM: Abrigo para animais abandonados em […]

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Virou rotina andar pelas ruas de São Gonçalo e passar por animais abandonados. Eu, por exemplo, assistia pela janela do carro e sentia bastante pena. Sentimento este, que não serve para nada, a não ser, esboçar mentalmente uma desculpa pela minha falta de iniciativa em ajudar os animais.

LEIA TAMBÉM: Abrigo para animais abandonados em São Gonçalo: Sonho ou Dura Realidade? 

Ingenuamente pensava aqui, do alto da minha ignorância, que não tinha nada a ver com isso, aliás, nem animais de estimação eu tenho, mas aos poucos fui descobrindo que a culpa era inteiramente minha.

A história toda começa com um cachorro abandonado chegando na rua onde moro. O coitado não conseguia parar de se coçar. Para mim (e para maioria, acredito eu), era apenas mais um cachorro abandonado por um morador vítima da crise financeira. Aquela coisa, o animal doméstico tem custos e, quando a conta não fecha no final do mês, acabou sobrando para o peludo com sarna, neste caso. Como a rua é bastante movimentada de carros e pessoas, é natural achar que o animal seguisse sua própria sorte por outras ruas e, quem sabe, encontrar um dono. Mas, contra todos os achistas, o cão resolveu ficar.

O cão Coceirinha e a mercearia do Careca.
O cão Coceirinha e a mercearia do Careca.

Basta uma pessoa tomar iniciativa

O cachorro permaneceu alguns dias e começamos a chamá-lo de Coceirinha. Ele simplesmente não parava de se coçar, não dormia porque se coçava. O sofrimento do bichinho só foi amenizado por Careca, apelido de Wagner, que arrumou ração e fez uma barraquinha de madeira reaproveitada de sua pequena mercearia na rua.

A casa criada pela Mercearia do Careca para ser o lar do cão Coceirinha.
A casa criada pela Mercearia do Careca para ser o lar do cão Coceirinha.

Além disso, Wagner levou o cachorro no petshop e no veterinário. Foi a partir desse ato que outros moradores tomaram a iniciativa de ajudar. Duas vizinhas do condomínio compraram remédios e fizeram uma casinha com dois baldes, que não custaram mais do que 20 reais. Outro vizinho deu uma roupinha, outro deu uma manta.

O cãozinho foi melhorando, a sarna e a coceira diminuíram até parar (mas o apelido continuou, rs). “Agora, as pessoas passam aqui e perguntam pelo Coceirinha.”, comenta Careca, “Basta uma pessoa fazer para que as outras ajudem. Mas acho que as pessoas deveriam ajudar mais. Outro dia, ele saiu atrás de uma cachorrinha e voltou mancando. Ele só vai ficar bem mesmo quando tiver um lar para se sentir seguro.”

A dupla Careca e Coceirinha
A dupla Careca e Coceirinha.

Foi nessa conversa que decidi fazer alguma coisa para sair da minha inércia de desatenção. Afinal, eu quero me sentir seguro, porque o Coceira não ia querer também? A tentativa de conseguir um lar para o bichinho me fez ir para rua e ver a realidade da cidade.

Mulheres gerando impacto positivo na cidade

Em um domingo, dia 2 de julho, aconteceu a feira de adoção “Leve um anjo para casa” no Shopping Partage, Centro de São Gonçalo. Fui na expectativa de saber mais sobre adoção e conversar sobre o atual estado da cidade em relação ao abandono. E, para surpresa deste ignorante que vos fala, o que encontrei foram vozes poderosas de pessoas engajadas com a saúde e bem-estar dos animais e, sobretudo, mulheres gerando impacto positivo na cidade.

Cachorrinha Pandora na Feira de adoção 'Leve um anjo para casa'.
Cachorrinha Pandora na Feira de adoção ‘Leve um anjo para casa.

De primeira, o que vi foi uma cena que me impactou bastante. Uma mulher acabara de adotar um cachorro e a protetora caiu aos prantos. Não era o choro de alguém que perde alguma coisa, era o choro que contava a história de um ser humano e seu companheiro. Era a história de Léa, a protetora, que resgatou Ed jogado dentro de uma lata de lixo, com ferimentos graves e a mandíbula quebrada. Naquele momento, o cão que ela cuidou por meses estava seguindo seu caminho depois de todo cuidado. “Fiquei com pena de adotar, porque ela chorou.”, Évia Alves emocionada, “Eu vim adotar porque meu cachorro faleceu recentemente. E é estranho ficar sem cachorro, porque a casa fica vazia, não tem ninguém para me fazer companhia quando todo mundo sai.”

O grupo organiza uma espécie de doação assistida, que exige a identificação do adotante com a assinatura de um termo de responsabilidade. O que achei mais interessante: o protetor oferece assistência, caso o adotante precise. Assim, o vínculo ainda permanece com o animal, ou seja, visitas aos animais podem ser marcadas.

Évia Alves e sua família completa, agora com Ed no Shopping Partage.
Évia Alves e sua família completa, agora com Ed no Shopping Partage.

Essas pessoas, mulheres em sua maioria, agem para dar proteção e acabam sendo retribuídas pelos bichinhos com afeto. No entanto, ainda são estigmatizadas por cuidarem de muitos animais. Mônica Nunes, é uma das organizadoras do evento, que atua também em Itaboraí, e trabalha de forma voluntária há 10 anos com proteção e resgate de animais. “Eu acho que agora nosso trabalho está começando a ser mais divulgado, antes nós éramos taxadas como malucas. Hoje em dia não, hoje as pessoas nos respeitam.”

Animais abandonados: questão de saúde pública

Foi interessante ver que muitas pessoas na cidade estão se movendo. Tomando a responsabilidade de melhorar o lugar onde vive. Afinal, a questão dos animais abandonados é um questão de saúde pública. O Estado do Rio de Janeiro há décadas tem um alarmante índice de esporotricose. Eu já tinha ouvido falar da raiva e do tétano, mas esse nome é novo. A esporotricose é uma micose, causada por um fungo, que pode afetar animais e humanos.

“São Gonçalo está engatinhando na questão de direitos dos animais, proteção de animais. Está começando a pensar nisso, já teve uma audiência pública sobre isso em outubro de 2015, falaram que em janeiro ia ter contêineres, mas até hoje nada foi definido.”, explica Sharon Morais, Presidente da Comissão de Proteção e defesa dos animais da OAB de Niterói.

Feira de adoção no Shopping Partage
Feira de adoção no Shopping Partage.

Há ainda a questão das pessoas que usam os animais para procriar e vender os filhotes. Muitas vezes os animais são submetidos a condições terríveis de higiene e alimentação. A tentativa de obter lucro faz com que os custos sejam cortados e o intervalo entre crias é diminuído, trazendo consequências sérias para a saúde dos animais. “É o capitalismo na sua forma mais nojenta. Descarta aquela ali e já pega uma cria que está mais nova para colocar no lugar dela. Preso em um canto só para procriar. Não tem afeto, não tem nada.”, comenta Sharon Morais.

A responsabilidade é minha, é sua, é de todos nós

Ao mesmo tempo, que foi desolador enxergar o cenário de abandono da cidade, foi incrível ter contato com essas pessoas que agem. E entender de fato que a culpa pelos animais abandonados é minha, é sua, é nossa. Afinal, a cidade é um conjunto que deve funcionar de maneira integrada e não podemos ficar esperando o poder público.

Organizadora da Feira de Animais, Mônica Nunes, e seu filho.
Organizadora da Feira de Animais, Mônica Nunes, e seu filho.

Primeiro, para você que está pensando em abandonar um peludinho, peça ajuda, junte pessoas que queiram ajudar ou leve para adoção, de maneira nenhuma descarte. Segundo, se um animal já foi abandonado, é muito possível que haja alguém querendo adotar. Hoje temos a internet como aliada, seja em páginas do Facebook ou grupos no Whatsapp, não há desculpa nesse mundo que nos impeça de parar o carro, fazer um resgate, achar um lugar temporário ou apenas tirar uma foto do bichinho e divulgar. Você pode não querer adotar, mas pode ser a ponte entre um Coceirinha e um adotante.

Durante esse o tempo da publicação deste artigo, o Coceirinha acabou sendo adotado por um vizinho da rua. Careca, seu protetor, ainda ajuda no que pode, parece que quando o cachorro precisa ir no veterinário só ele consegue acalmar o companheiro peludo.

DENUNCIE MAUS TRATOS PELO TELEFONE: 2199-6511

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Violência nunca esteve tão próxima – o colapso na segurança do RJ https://simsaogoncalo.com.br/seguranca-em-colapso-violencia-nunca-esteve-tao-proxima/ https://simsaogoncalo.com.br/seguranca-em-colapso-violencia-nunca-esteve-tao-proxima/#comments Fri, 30 Jun 2017 17:53:57 +0000 https://simsaogoncalo.com.br/?p=4774 A violência está perto. Está batendo na porta da sua casa. É visível pela janela. Feche a cortina para não participar. Desligue a TV, ela só fala do pior lado de São Gonçalo. Ainda sim, você pode acordar com barulho de tiro de madrugada. Vai saber, intuitivamente, que foi uma pistola 38, disparada mais ou […]

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A violência está perto. Está batendo na porta da sua casa. É visível pela janela. Feche a cortina para não participar. Desligue a TV, ela só fala do pior lado de São Gonçalo.

Ainda sim, você pode acordar com barulho de tiro de madrugada. Vai saber, intuitivamente, que foi uma pistola 38, disparada mais ou menos em um raio de um quilômetro. Vai torcer para ter sido só uma comemoração. Que estranho! Jogo de futebol a essa hora? Os tiros continuam, caramba! Tenta dormir para esquecer. Dormiu. No sonho, você está sendo sequestrado, o filho que você ainda não tem está sendo levado. Você acorda, eu acordo, todo mundo acorda. São 4 horas da manhã e nós ainda temos 2 horas para dormir antes de acordar para trabalhar. Mas quer saber? Vamos ficar acordados, estamos cansados de pesadelo todos os dias.

Rotatória do Zé Garoto. Foto: Fernando Bittencourt
Rotatória do Zé Garoto. Foto: Fernando Bittencourt

“Laranjas podres: quase 100 PMs são denunciados na maior operação contra corrupção de PMs no RJ. Megaoperação foi deflagrada para prender 96 PMs, 70 traficantes e outros integrantes de esquema em São Gonçalo.” – Noticiário, 29 de junho de 2017

Falsa segurança: quando as armas mudam de mãos

Voltando no tempo, precisamente no segundo semestre de 2010, gravei, junto com dois amigos, um trabalho para faculdade sobre a instalação da 6ª Unidade de Polícia Pacificadora no Morro dos Cabritos, Copacabana. Naquele momento, a implantação da unidade tinha 6 meses e o clima era de dúvida. Na fala dos moradores, a gente encontrava ansiedade na espera de uma intervenção mais social, que trouxesse infraestrutura para a comunidade. Mas o fato era que, até aquele momento, as armas tinham mudado de mãos.

Novembro de 2010, dia 25, quinta-feira.

Assisti, de uma das televisões do Pilotis da PUC, a incursão do BOPE ao Complexo do Alemão. Não lembro exatamente da minha reação, mas lembro perfeitamente do medo que senti na volta para casa, dentro do ônibus 996, viação 1001, que faz o trajeto Gávea x Charitas. Os policiais estavam parando e revistando os coletivos que iam para Niterói. Naquele momento, eu entendi que os fatos tinham relação direta, invasão dos morros e evasão dos bandidos, mas não realizei que em pouco tempo a minha cidade ia mudar drasticamente.

Morro Menino de Deus, centro de São Gonçalo. Foto: Fernando Bittencourt
Morro Menino de Deus, centro de São Gonçalo. Foto: Fernando Bittencourt

Do Galo Branco para o Rodo

Em setembro de 2013, me mudo do bairro Galo Branco para o Centro de São Gonçalo, o Rodo. A realidade me impacta logo de cara. Morar no Rodo é encontrar ruas desertas a partir das 7 horas da noite. Morava em um prédio que dava as costas para o Morro Menino de Deus, na Rua Aluísio Neiva. Aos poucos, fui entendendo a dinâmica da comunidade. A venda de drogas que acontecia, a apreensão dos moradores, os conflitos com a polícia, tudo. Ouvia tiros esporádicos à noite. Logo depois, os tiros não tinham mais hora para acontecer.

Foram três anos que vivi naquele apartamento. Três anos de muita angústia. Ao mesmo tempo que ganhei em mobilidade, com mais opções de transporte e facilidades, pela proximidade do comércio, ganhei insegurança para sair e chegar em casa. Da janela do quarto, via os traficantes com armas na pedra em cima do morro. Do outro lado, na varanda, via os policiais na rua, cobertos pela parede do edifício. Eu estava no meio da guerra. Não era um noticiário da Tv, era a minha realidade.

Quando a sensação de segurança se esvai

Um dia combinamos de levar dois sobrinhos ao cinema. Laura, minha namorada, pegou eles de carro e passou no apartamento para me buscar. Eu já tinha descido, porque ela já tinha me dado um toque no celular. Em frente ao prédio, ela passa de carro e para, vou ao seu encontro e entro no carro. Um Gol branco para na nossa frente e dá ré, sai um homem do carona… eu sabia o que ia acontecer, já tinha ouvido muitos relatos, muitos amigos e parentes já passaram por essa situação. Mas eu não queria acreditar. Comigo não, hoje não, por favor… Fomos assaltados, levaram o carro, todos a salvo. Perdemos, e não foi só o bem material, foi toda e qualquer liberdade que ainda restava. Olhando para trás, tudo mudou a partir daquele dia, nossos hábitos se moldaram a procura de proteção.

Vista para o Mutuá. Foto: Fernando Bittencourt
Vista para o Mutuá à noite. Foto: Fernando Bittencourt

Parada 40 e o velado toque de recolher

Em 2016, me mudo para o bairro Parada 40. Lugar onde estou até hoje. Começamos a morar juntos em um condomínio com segurança 24 horas. Câmeras de segurança vigiam a todos. Ruas movimentadas, próximas à famosa Rua da Caminhada. No perímetro próximo, há lanchonetes, bares, colégios e uma grande concentração de igrejas evangélicas. Além do fluxo normal de pessoas do condomínio.

Definitivamente, a Parada 40 é mais movimentada. Mas às 21 horas, as pessoas já não circulam mais. Há um toque de recolher velado. Todos sentem que não é hora de ficar na rua. O som do motor das motos assusta, qualquer carro assusta, qualquer transeunte assusta. Você não quer ter medo, mas o sentimento é maior.

Rua Aluísio Neiva, Centro de São Gonçalo: carros em alta velocidade. Foto: Fernando Bittencourt
Rua Aluísio Neiva, Centro de São Gonçalo: carros em alta velocidade. Foto: Fernando Bittencourt

Ontem de madrugada, ouvi um tiro de 38. Foi disparado, mais ou menos, num raio de um quilômetro… dessa vez, decidi que vou acordar e sonhar com um lugar melhor. Com uma cidade que não me cause medo. Em busca de dias melhores.

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