porto novo Archives - Sim São Gonçalo https://simsaogoncalo.com.br/tag/porto-novo/ A revista da 16ª maior cidade do Brasil – São Gonçalo, Rio de Janeiro Fri, 15 Dec 2017 20:50:38 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.8.2 https://simsaogoncalo.com.br/wp-content/uploads/2016/07/cropped-sim-sao-goncalo-900-32x32.jpg porto novo Archives - Sim São Gonçalo https://simsaogoncalo.com.br/tag/porto-novo/ 32 32 147981209 Por que jogamos lixo nas ruas e rios? https://simsaogoncalo.com.br/por-que-jogamos-tanto-lixo-nos-rios/ https://simsaogoncalo.com.br/por-que-jogamos-tanto-lixo-nos-rios/#comments Thu, 14 Dec 2017 03:16:20 +0000 https://simsaogoncalo.com.br/?p=5885 É comum que sempre coloquemos a culpa no poder público. Afinal, nós, brasileiros, fomos moldados por uma tradição de dependência do governo. Seja com os mais pobres ou mais ricos, a reclamação é a mesma. Estes últimos, aliás, vivem das benesses públicas, do funcionalismo aos prestadores de serviço. No final, independente da classe econômica, você sempre […]

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É comum que sempre coloquemos a culpa no poder público. Afinal, nós, brasileiros, fomos moldados por uma tradição de dependência do governo.

Seja com os mais pobres ou mais ricos, a reclamação é a mesma. Estes últimos, aliás, vivem das benesses públicas, do funcionalismo aos prestadores de serviço. No final, independente da classe econômica, você sempre ouvirá um “mas o governo tem – ou não tem – que fazer isso ou aquilo”.

Entretanto, mesmo que o serviço público funcione, é comum ver muitos de nós, cidadãos, não colaborando com o todo. Um exemplo clássico é ver o coletor de lixo passando com regularidade nas ruas e, mesmo assim, as pessoas continuam jogando lixo nas ruas e rios.

Talvez já tenha passado da hora de fazermos uma auto cobrança: E NÓS? O que estamos fazemos pelo bem estar social?

 Lixo jogado e "armazenado" na margem do rio no Porto Novo – São Gonçalo. Não satisfeitos em deixa o lixo ali, insistem em queimá-lo também. Foto: Sim São Gonçalo

Lixo jogado e “armazenado” na margem do rio no Porto Novo – São Gonçalo. Não satisfeitos em deixar o lixo ali, insistem em queimá-lo também. Foto: Sim São Gonçalo

Nosso hábito de imundiçar os rios é antigo

A cidade do Rio de janeiro já foi conhecida como “Veneza dos Trópicos”, pela quantidade de rios navegáveis que havia na região. Hoje, boa parte está enterrada, virou galeria de esgoto ou valão. Em São Gonçalo, Niterói, Baixada, o processo é similar. Afinal, nossa geografia é igual. E todos desaguam na Baía de Guanabara.

Nossa cidade, inclusive, teve seu desenvolvimento por conta dessa malha fluvial. Os vestígios dessa época são os bairros com nomes de portos, como Porto Novo, Porto da Pedra, Porto do Rosa, Porto Velho. Todos com um objetivo em comum: escoar a produção das fazendas da região, como a própria Fazenda Colubandê, por exemplo.

O crescimento ao redor de todos esses rios da região metropolitana foi devastador. Transformamos tudo em redes de esgoto. Incrivelmente, alguns sobraram para contar história.

Rio Marimbondo no Porto Novo, cruza a Rua Maria Rita – São Gonçalo
O Rio Marimbondo cruza a rua Maria Rita no Porto Novo. É um desses rios sobreviventes que não foram completamente enterrados no processo de habitação da cidade. Foto: SIM São Gonçalo

Meu lixão favorito

Mesmo aprendendo desde pequenos que não se pode jogar lixo nas ruas e rios, muitas crianças ainda são deseducadas quando voltam às suas casas. Num momento onde tanto se fala em educação moral, que determinados assuntos tem que ser ensinados em família, é vergonhoso ver que, também em família, pouco se ensina sobre viver em comunidade, recolher o lixo e não imundiçar o espaço público e meio ambiente.

Paredão da Escola Estadual Tarcísio Bueno no Paraíso, São Gonçalo. Após a desativação da escola, o hábito de depositar lixo aumentou no lugar. Este é um dos raros momentos que o vemos limpo. Alguns minutos após a prefeitura fazer a limpeza. Foto: Matheus Graciano, SIM São Gonçalo

Há alguns anos, a teoria das “janelas quebradas” (Universidade de Stanford – EUA) ganhou notoriedade. Ela consiste em mostrar que, quanto pior um lugar ou objeto, mais as pessoas contribuirão para piorá-lo e menos para preservá-lo. Em nossas cidades, podemos adaptar a teoria. Aqui ela se chama “Meu Lixão Favorito”. Com algumas adaptações.

Em suma, mesmo que limpemos os rios, ruas ou esquinas, as pessoas continuarão jogando lixo ali. Como o entorno é ruim, muitas consolidaram em suas mentes que aquele é “o lugar do lixo”. O lixão pra chamar de seu. Podemos limpar o quanto for. Mas enquanto toda a infraestrutura não for alterada, as pessoas continuarão jogando seus dejetos ali, sem se importar ou se preocupar.

Caixote flutuando no rio Marimbondo no Porto Novo, São Gonçalo

Com a violência dos fenômenos meteorológicos atuais, é possível que novas inundações aconteçam. É o momento no qual os rios “se vingam”, jogando todo o lixo de volta para suas casas ao redor.

O que é preciso para resolver isso?

Só “educação” não é uma resposta satisfatória. Não é difícil ouvir pessoas ditas instruídas ou educadas fazendo o errado e se justificando dizendo “aqui é assim mesmo” ou “não sou só eu”. Infelizmente, é mais comum do que se pensa.

O problema passa por uma consciência individual, combinada com resoluções, aí sim, advindas do poder público. Porém, precisam ser soluções combinadas. Há um tempo atrás, até, lembro de já ter falado sobre como a melhora nos equipamentos públicos de sinalização dão uma “cara nova” aos bairros e à cidade.

Arredores da Praça do Gradim. Foto: Matheus Graicano / SIM São Gonçalo

Portanto, nem tanto à terra, nem tanto ao mar. Culpar o poder público sem cobrar o cidadão, e vice-versa, é só mais um ciclo vicioso que no final nada resolve a questão do lixo na 2ª maior região metropolitana e 16ª cidade mais populosa do Brasil.

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Translúcida: a travesti do porto novo, respeito e visibilidade trans https://simsaogoncalo.com.br/translucida-no-porto-novo/ https://simsaogoncalo.com.br/translucida-no-porto-novo/#respond Thu, 19 Oct 2017 20:15:13 +0000 https://simsaogoncalo.com.br/?p=5457 – Muito obrigada, senhor, tenha um bom dia. O cliente levantou a cabeça espantado, olhando pra mim como se não tivesse me visto antes. Comum, aquilo. Eles passam tão depressa as suas compras e sequer se importam em dar bom dia pro caixa. Eu devia ficar quieta. O tom de voz grave não combina, e […]

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– Muito obrigada, senhor, tenha um bom dia.

O cliente levantou a cabeça espantado, olhando pra mim como se não tivesse me visto antes. Comum, aquilo. Eles passam tão depressa as suas compras e sequer se importam em dar bom dia pro caixa. Eu devia ficar quieta. O tom de voz grave não combina, e daí olham como se um cachorro tivesse acabado de fugir e parasse na frente deles. Risinhos sem graça, lábios comprimidos, boca retorcida. “O-o-obriga-gado”, dizem.

De vez em quando um moleque imbecil que grita quando sai do mercado: “Traveco!”

Esse papo de respeito, visibilidade trans e homofobia ainda não chegou no Supermercado Nazareth (hoje Supermarket). Cresci em um tempo em que era normal apanhar por ser diferente. Na rua, na escola, em casa. A palavra bullying sequer existia, e respeito era usado apenas para os pais de famílias. Simultâneas, até – e a aberração era eu. Até os dezesseis anos eu era o “viadinho”, então saí de casa e passei a ser o travesti. Morei no interior da Bahia, vivi os piores cenários possíveis para um homossexual nos anos 90 – prostíbulos, drogas, caminhoneiros e AIDS – e sobrevivi a todos eles. Voltei para o Porto Novo depois que meu pai morreu, definhando naquela casa verde onde ele tanto me espancara para aprender a ser homem, e arrumei emprego de operador de caixa. Enquanto tantos buscam visibilidade, eu quero é ser invisível. Menos para o Malvino Salvador.

Não, claro que não é o ator – o que o Malvino Salvador de verdade faria aqui no Porto Novo? Há uns três meses ele vinha no mercado quase toda semana, devia ser novo aqui. Não fazia compras de mês, quase ninguém faz compras de mês no mercadinho do bairro; comprava coisas urgentes como alho, suco e aquele arroz que acabou. E eu ficava olhando de rabo de olho pra ele, aquele moço – não tão moço – que parecia o Malvino Salvador, e que pra mim era.

– Caraca, moleque, o caixa é travesti! – a voz me tirou da contemplação secreta que eu fazia de meu Malvino escolhendo tangerina.

– Boa noite, senhores.

– Olha a voz dele! – falou rindo o outro pirralho, camisa de banda. Deviam estar indo beber essa vodka barata sentados na calçada do Metallica Pub.

– Posso ajuda-los em mais alguma coisa? – toda uma vida de chacota, de ódio, de desprezo. Eu já devia estar acostumada, mas ainda doía como da primeira vez.

– Pode sim… Ele quer um beijinho!

– Eu, hein! Tô fora!

– Que isso, cara! O viado é coroa mas é bonitinho! Aqui, dá um beijinho nele, dá…

Antes que ele esticasse a mão e me tocasse um braço forte e peludo o impediu.

– Peça desculpas para a moça.

– Ih, que isso, cara?

– AGORA. – Meu Malvino, mais Salvador do que nunca, olhou pra mim e sorriu com os olhos. Se ninguém me visse nunca mais, não importaria.

Ele me viu.

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