clélia nanci Archives - Sim São Gonçalo https://simsaogoncalo.com.br/tag/clelia-nanci/ A revista da 16ª maior cidade do Brasil – São Gonçalo, Rio de Janeiro Fri, 08 Dec 2023 22:31:51 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.8.2 https://simsaogoncalo.com.br/wp-content/uploads/2016/07/cropped-sim-sao-goncalo-900-32x32.jpg clélia nanci Archives - Sim São Gonçalo https://simsaogoncalo.com.br/tag/clelia-nanci/ 32 32 147981209 Moça bonita não paga – a mais bela do Clélia Nanci https://simsaogoncalo.com.br/moca-bonita-nao-paga/ https://simsaogoncalo.com.br/moca-bonita-nao-paga/#respond Tue, 29 May 2018 20:07:40 +0000 https://simsaogoncalo.com.br/?p=6446 Andressa era a menina mais bonita do Clélia Nanci. Destoava em meio a tantas outras, de todas as formas e tamanhos: tinha os cabelos loiro-acobreados, como ouro velho, sempre no volume e tamanho certos. Na minha cabeça Andressa devia dormir em pé, dava sete e meia da manhã e ela já estava toda linda na […]

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Andressa era a menina mais bonita do Clélia Nanci. Destoava em meio a tantas outras, de todas as formas e tamanhos: tinha os cabelos loiro-acobreados, como ouro velho, sempre no volume e tamanho certos. Na minha cabeça Andressa devia dormir em pé, dava sete e meia da manhã e ela já estava toda linda na escola, com aquele cabelo liso escorrido armado, que ódio. Andressa era branca, lábios rosados e olhos azuis, toda diferente de todos nós, mestiçados e selvagens. Ninguém entendia muito bem o que Andressa fazia ali no meio da gente, alguém uma vez me disse que o pai dela tinha perdido muito dinheiro no Plano Collor, foram muito ricos e agora estavam exilados na Brasilândia. Na minha cabeça eu não via nada demais naquilo, moro aqui desde que nasci, mas dizem que pobre se acostuma a ficar rico rápido, porém o contrário é mais difícil – e deve ser mesmo.

Ela ficou mocinha antes de todas nós. Não demorou Andressa já tinha peito e quadril, o que começou a atrair principalmente meninos mais velhos das séries acima da nossa. Nos encontros do EAC ela brilhava, todos os rapazes babavam por Andressa, enquanto nós ficávamos relegadas às dinâmicas de grupo e sonhos de consumo distantes.

Encontrei Andressa outro dia, atravessando a rua em frente à prefeitura. Tantos anos se passaram, e ela continua linda, impossível de passar despercebida aos olhares masculinos. O mesmo cabelo, o mesmo sorriso, o mesmo corpo espetacular. Era final do dia, uma quinta-feira, e – por que não? – chamei Andressa para compartilhar um chopp no Rodobier. “Mas hoje é quinta-feira!”, ela ainda disse. E o que tem? Sexta-feira é dia de azaração, gosto de beber um dia antes, quando eu posso relaxar da semana e contemplar as pessoas sem ser importunada com olhares gulosos e telefones em guardanapos sujos.

“Eu nunca encontrei o amor”, foi uma das primeiras coisas que disse, assim que chegou o chopp. Quando uma pessoa lança um assunto com este grau de nada a ver dentro do papo, eu a deixo falar. O assunto pode parecer alheio, mas se a informação incoerente brota de inopinado, é porque ela pensa muito nisso e não tem ninguém com quem compartilhar.

E ela falou.

Contou-me que passara por três casamentos complicados nesses anos, tempestuosos e breves. Dois deles envolveram algum tipo de violência, e o primeiro lhe deixara um filho, que morava com o pai no exterior. Entre umas tulipas e outras, confidenciou: “Acho que nunca nenhum deles me amou de verdade. Quando conheciam quem realmente sou, o casamento acabava.”

Eu bebericava e murmurava “ahn hans” e “que issos”. Eu e meu marido (ex-marido, mas isso não vem ao caso) nos conhecemos bem antes de nos casarmos – e por isso casamos, inclusive. Ele não amou o que eu apresentava para o exterior, mas sim o que eu ofereci só a ele, e só ele conheceu. Mas não podia falar isso, de maneira alguma. Eu tinha à minha frente a menina mais bonita da escola, que esnobava a todos e jogava em nossas caras a nossa insignificância no quadro geral da ditadura da beleza estabelecida pela mídia. Eu devia até sentir um certo júbilo, ao ver o produto mais bonito da vitrine havia sido devolvido tantas vezes, mas não consegui. No lugar disso, uma queimação como uma azia se formava dentro de mim, um enjoo ao contrário ao qual eu não estava acostumada.

Mais algumas tulipas – entremeadas por uma carne frita em tiras e cebola – ela disse, já com a boca mole: “Eu sei que vocês todas me invejavam na escola, Damiana. Mas deixa eu te falar uma coisa: a beleza é um fardo.”

Eu ia falar que ser feio era pior, apenas como um chiste, mas não consegui. Só então reconheci o que eu estava sentindo. Era pena. Eu senti pena de Andressa.

Pagamos a conta e nos despedimos com o velho “vamos marcar alguma coisa”. No abraço apertado – e cheiroso – o enjoo voltou mais uma vez e eu entendi a frase dos vendedores ambulantes em uma profundidade que nem eles conhecem: “Moça bonita não paga – mas também não leva”.

Ilustração: Paulo Rodrigues (@ilustrepaulo)

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Clélia Nanci e a reocupação anti-democrática https://simsaogoncalo.com.br/clelia-nanci-e-a-reocupacao-anti-democratica/ https://simsaogoncalo.com.br/clelia-nanci-e-a-reocupacao-anti-democratica/#respond Fri, 16 Dec 2016 13:33:17 +0000 https://simsaogoncalo.com.br/?p=4191 Foi grande o crescimento da população jovem brasileira nos últimos 35 anos. Somado às políticas inclusivas, tivemos um aumento considerável no número de matrículas, inchando as escolas públicas que, dada a incompetência e corrupção dos governos, resultou na educação que temos hoje, mal-gerida, com escolas sucateadas e profissionais mal-remunerados. Nesse sentido, buscando reivindicar melhores condições para todos, o movimento de ocupação das escolas de ensino […]

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Foi grande o crescimento da população jovem brasileira nos últimos 35 anos. Somado às políticas inclusivas, tivemos um aumento considerável no número de matrículas, inchando as escolas públicas que, dada a incompetência e corrupção dos governos, resultou na educação que temos hoje, mal-gerida, com escolas sucateadas e profissionais mal-remunerados. Nesse sentido, buscando reivindicar melhores condições para todos, o movimento de ocupação das escolas de ensino médio e fundamental fez sentido, chamando a atenção para um problema que é de todos.

Entretanto, após os acordos e conquistas daquele primeiro momento, parece que alguns militantes passaram a acreditar que ocupar é instrumento legítimo para tudo, inclusive para fazer algo que tantos lutaram para implementar no Brasil: o direito de votar.

Alunos se reuniram bem cedo na porta da escola para desocupá-la, resgatando seus direitos de estudar e votar.

No final da tarde da terça-feira, a “reocupação” aconteceu. Entretanto, as reivindicações agora eram outras. Questionavam a legitimidade da eleição que aconteceria no dia seguinte, alegando não concordar com a eleição de chapa única. Entretanto, a própria Secretaria de Estado de Educação lembra que a Lei Estadual Nº 7.299 não impede que a eleição aconteça, mesmo que só haja uma chapa, deixando ainda mais duvidosa a atitude do grupo.

Dada a incoerência da situação, a ação dos alunos foi rápida: marcaram de aparecer na porta da escola no dia seguinte, no primeiro horário da manhã. Naquela manhã chuvosa de quarta-feira (14/12/2016), a massa de estudantes contrários à ocupação, literalmente, desocuparam a escola. Não reconhecendo o grupo de alunos ocupantes como algo legítimo, acionaram a polícia militar que, após a “desocupação” feita pelos alunos, levou os militantes para prestar esclarecimentos na delegacia.

Se para alguns essa nova ocupação era sem sentido, servindo só para tumultuar o já desregulado calendário escolar, para outros as motivações foram bem menos nobres e mais pessoais. Parece que o jeito brasileiro de fazer política está refletindo nos movimentos estudantis, que contaminados por partidos políticos, deixam a comunidade em segundo plano, favorecendo os interesses pessoais e de pequenos grupos.

As dúvidas tornaram-se ainda maiores quando adesivos de apoio à direção atual foram encontrados em posse dos militantes ocupantes, como mostram as imagens abaixo. Afinal, se a direção antiga quisesse ficar, não seria mais fácil se candidatar, formando uma segunda chapa?

Joseli – Clélia Nanci São Gonçalo
Adesivos de apoio à atual direção.

Esse fato acontecido na cidade, bem próximo aos nossos olhos, nos leva a questionar, mais uma vez, o quanto a educação e o desenvolvimento na capacidade de pensar, refletir e discernir para agir pode quebrar esse ciclo de péssimos exemplos que temos na política nacional. Se hoje, movimentos criados por jovens com boas finalidade são usados como instrumento de manobra, beneficiando pequenos grupos em detrimento do interesse coletivo, o que se esperar desses mesmos militantes no futuro?

Fica aqui o parabéns à comunidade escolar que se fez presente, se organizando e manifestando seus direitos legítimos. É preciso repetir para não esquecermos: o diálogo sempre vem antes da força, pois a escola é de todos.

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