conto Archives - Sim São Gonçalo https://simsaogoncalo.com.br/tag/conto/ A revista da 16ª maior cidade do Brasil – São Gonçalo, Rio de Janeiro Thu, 30 Nov 2023 16:43:11 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.8.3 https://simsaogoncalo.com.br/wp-content/uploads/2016/07/cropped-sim-sao-goncalo-900-32x32.jpg conto Archives - Sim São Gonçalo https://simsaogoncalo.com.br/tag/conto/ 32 32 147981209 A Filha do Califa do Lindo Parque https://simsaogoncalo.com.br/a-filha-do-califa-do-lindo-parque/ https://simsaogoncalo.com.br/a-filha-do-califa-do-lindo-parque/#respond Tue, 22 Jan 2019 20:36:29 +0000 https://simsaogoncalo.com.br/?p=6917 A história é banal, contada e recontada pelos poetas árabes mesmo em seu período de ignorância pré-Alcorão. A filha do califa, prometida em casamento para um rico – e mais velho – mercador se apaixona pelo jovem e encantador estudante. Só que desta vez o califa é um pastor evangélico do Lindo Parque; e o […]

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A história é banal, contada e recontada pelos poetas árabes mesmo em seu período de ignorância pré-Alcorão. A filha do califa, prometida em casamento para um rico – e mais velho – mercador se apaixona pelo jovem e encantador estudante. Só que desta vez o califa é um pastor evangélico do Lindo Parque; e o jovem estudante, um menino do Barro Vermelho.

Não havia quem questionasse o casamento. No alvorecer de sua adolescência, a menina Jade já chamava a atenção dos homens. Não que tivesse as formas opulentas que capturam o olhar dos predadores, mas seu sorriso doce, olhos brilhantes e a farta cabeleira encaracolada era um convite a um jardim persa. Não demorou muito e os encantos da jovem despertaram a paixão em Hassan, mercador que frequentava a igreja do califa e cujas famílias nutriam uma grande amizade. O destino da menina Jade parecia traçado – e conformado, até. Daí ela conheceu o jovem Adônis.

Adônis era um menino bonito e de grande coração, além de uma inteligência exemplar. Jade e Adônis estudavam juntos, e logo se reconheceram. Falavam sobre livros, filmes e músicas, e viam suas paixões em comum se espelharem em oito olhos. O problema da paixão é que ela é selvagem e não respeita fronteiras. Quando o cérebro não foi mais suficiente para contê-la, ela migrou para o coração.

Porém Adônis era um moço respeitador e, sabendo do compromisso de Jade, preferia não arriscar perder a cabeça. Não queria trair a confiança do califa que, apesar de homem bravo e influente, sempre o tratara muito bem. A jovem Jade também não via saída, dava como favas contadas o seu casamento com Hassan, mesmo sentindo por ele apenas carinho.

Se não fosse por um velho mestre, a história seguiria seu curso natural e chato, sem os percalços e sobressaltos que dão cor à vida. Um dia, os jovens liam poemas no jardim da escola, poemas épicos sobre dragões, batalhas e amores, observados por um de seus professores. O gesto o emocionou – logo ele, que tinha a mania de ver a poesia do Criador em cada folha que se desprendia da árvore. Mais tarde, após a aula, o mestre – que também era um grande enxerido – questionou os apaixonados. Ao ficar a par da situação proibitiva que ensombrecia aquela paixão, foi duro com os jovens: “Amor verdadeiro é difícil de achar, crianças. Abrir mão dele não é uma opção, mas ferir a todos envolvidos no processo – inclusive a si mesmos – seria apenas escrever mais um poema ruim no livro da vida”.

O fim dessa história vocês também já conhecem, tudo deu certo e Jade e Adônis vivem hoje felizes para sempre. Passaram outro dia caminhando de mãos dadas em frente ao “Ora Veja” da Zé Garoto, enquanto bebíamos, eu e o velho mestre – que além de enxerido é um beberrão incurável – e ele me contou a sua história, tendo em seus olhos o mesmo brilho que tinham os domos dos minaretes de Constantinopla ao entardecer de outono.

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Moça bonita não paga – a mais bela do Clélia Nanci https://simsaogoncalo.com.br/moca-bonita-nao-paga/ https://simsaogoncalo.com.br/moca-bonita-nao-paga/#respond Tue, 29 May 2018 20:07:40 +0000 https://simsaogoncalo.com.br/?p=6446 Andressa era a menina mais bonita do Clélia Nanci. Destoava em meio a tantas outras, de todas as formas e tamanhos: tinha os cabelos loiro-acobreados, como ouro velho, sempre no volume e tamanho certos. Na minha cabeça Andressa devia dormir em pé, dava sete e meia da manhã e ela já estava toda linda na […]

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Andressa era a menina mais bonita do Clélia Nanci. Destoava em meio a tantas outras, de todas as formas e tamanhos: tinha os cabelos loiro-acobreados, como ouro velho, sempre no volume e tamanho certos. Na minha cabeça Andressa devia dormir em pé, dava sete e meia da manhã e ela já estava toda linda na escola, com aquele cabelo liso escorrido armado, que ódio. Andressa era branca, lábios rosados e olhos azuis, toda diferente de todos nós, mestiçados e selvagens. Ninguém entendia muito bem o que Andressa fazia ali no meio da gente, alguém uma vez me disse que o pai dela tinha perdido muito dinheiro no Plano Collor, foram muito ricos e agora estavam exilados na Brasilândia. Na minha cabeça eu não via nada demais naquilo, moro aqui desde que nasci, mas dizem que pobre se acostuma a ficar rico rápido, porém o contrário é mais difícil – e deve ser mesmo.

Ela ficou mocinha antes de todas nós. Não demorou Andressa já tinha peito e quadril, o que começou a atrair principalmente meninos mais velhos das séries acima da nossa. Nos encontros do EAC ela brilhava, todos os rapazes babavam por Andressa, enquanto nós ficávamos relegadas às dinâmicas de grupo e sonhos de consumo distantes.

Encontrei Andressa outro dia, atravessando a rua em frente à prefeitura. Tantos anos se passaram, e ela continua linda, impossível de passar despercebida aos olhares masculinos. O mesmo cabelo, o mesmo sorriso, o mesmo corpo espetacular. Era final do dia, uma quinta-feira, e – por que não? – chamei Andressa para compartilhar um chopp no Rodobier. “Mas hoje é quinta-feira!”, ela ainda disse. E o que tem? Sexta-feira é dia de azaração, gosto de beber um dia antes, quando eu posso relaxar da semana e contemplar as pessoas sem ser importunada com olhares gulosos e telefones em guardanapos sujos.

“Eu nunca encontrei o amor”, foi uma das primeiras coisas que disse, assim que chegou o chopp. Quando uma pessoa lança um assunto com este grau de nada a ver dentro do papo, eu a deixo falar. O assunto pode parecer alheio, mas se a informação incoerente brota de inopinado, é porque ela pensa muito nisso e não tem ninguém com quem compartilhar.

E ela falou.

Contou-me que passara por três casamentos complicados nesses anos, tempestuosos e breves. Dois deles envolveram algum tipo de violência, e o primeiro lhe deixara um filho, que morava com o pai no exterior. Entre umas tulipas e outras, confidenciou: “Acho que nunca nenhum deles me amou de verdade. Quando conheciam quem realmente sou, o casamento acabava.”

Eu bebericava e murmurava “ahn hans” e “que issos”. Eu e meu marido (ex-marido, mas isso não vem ao caso) nos conhecemos bem antes de nos casarmos – e por isso casamos, inclusive. Ele não amou o que eu apresentava para o exterior, mas sim o que eu ofereci só a ele, e só ele conheceu. Mas não podia falar isso, de maneira alguma. Eu tinha à minha frente a menina mais bonita da escola, que esnobava a todos e jogava em nossas caras a nossa insignificância no quadro geral da ditadura da beleza estabelecida pela mídia. Eu devia até sentir um certo júbilo, ao ver o produto mais bonito da vitrine havia sido devolvido tantas vezes, mas não consegui. No lugar disso, uma queimação como uma azia se formava dentro de mim, um enjoo ao contrário ao qual eu não estava acostumada.

Mais algumas tulipas – entremeadas por uma carne frita em tiras e cebola – ela disse, já com a boca mole: “Eu sei que vocês todas me invejavam na escola, Damiana. Mas deixa eu te falar uma coisa: a beleza é um fardo.”

Eu ia falar que ser feio era pior, apenas como um chiste, mas não consegui. Só então reconheci o que eu estava sentindo. Era pena. Eu senti pena de Andressa.

Pagamos a conta e nos despedimos com o velho “vamos marcar alguma coisa”. No abraço apertado – e cheiroso – o enjoo voltou mais uma vez e eu entendi a frase dos vendedores ambulantes em uma profundidade que nem eles conhecem: “Moça bonita não paga – mas também não leva”.

Ilustração: Paulo Rodrigues (@ilustrepaulo)

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Voleio: a menina do Rodo e sua confusão de desejos https://simsaogoncalo.com.br/voleio-a-menina-do-rodo-e-sua-confusao-de-desejos/ https://simsaogoncalo.com.br/voleio-a-menina-do-rodo-e-sua-confusao-de-desejos/#respond Thu, 02 Nov 2017 18:04:34 +0000 https://simsaogoncalo.com.br/?p=5453 “Sapatão!” A palavra ecoava na cabeça de Juliana, às vezes na voz da mãe, outras nas vozes das amigas, e em algumas ocasiões em sua própria voz. No coração, uma mistura de confusão, surpresa e deleite. – Bom jogo hoje, Ju. – A voz de Andrea parecia conhecer exatamente o tom e a frequência para […]

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“Sapatão!”

A palavra ecoava na cabeça de Juliana, às vezes na voz da mãe, outras nas vozes das amigas, e em algumas ocasiões em sua própria voz. No coração, uma mistura de confusão, surpresa e deleite.

– Bom jogo hoje, Ju. – A voz de Andrea parecia conhecer exatamente o tom e a frequência para dissipar suas inseguranças. – Linda aquela bola de segunda.

“Linda é você”, pensou Juliana. No vestiário, o time de vôlei do Ensino Médio do Colégio Santa Terezinha se trocava depois do jogo. Amônia, suor e desodorante adolescente. E as costas esguias de Andrea, que mexia no armário já sem o top. “Sapatão!”, ecoou novamente.

Juliana nunca se interessara por mulheres, mas a chegada de Andrea na escola a fizera piscar duas vezes com a boca seca. Estudava ali desde o jardim, e jogava vôlei desde o Fundamental. Quando seu corpo espichou na adolescência, não saíra mais do time, e representava o Colégio em competições externas. Um professor já lhe dissera que assim que terminasse o terceiro ano ia levá-la para peneira em grandes clubes. Então, aquele ano que começara com o sonho jogar com a camisa do Rexona, agora se resumia aos lábios de Andrea, a aluna nova que não dava bola pra ninguém, e com quem logo se entendera. Bem demais.

Juliana não era gostosa para os padrões juvenis, mas sua altura e beleza chamavam a atenção. O primeiro beijo tinha sido na escola mesmo, em uma festa junina – ainda no nono ano – com um menino de sua sala. Sua mãe era rígida, e sua rotina de namoro ficava restrita à escola, sempre com rapazes. Até agora. “Sapatão!” – desta vez foi a voz do pai, advogado, católico e vascaíno.

– Você trouxe desodorante ou vai usar o meu de novo? – Andrea agora estava de frente, virada para ela. A pele de chocolate, as auréolas escuras e grandes em seios fartos, tão diferentes dos seus… Os cabelos encaracolados da colega desciam pelos ombros, e o olhar de Juliana parou nos pelos que desciam de seu umbigo até a fronteira da calcinha. – Que foi, menina?

– Não, nada… Eu aceito sim, esqueci o meu de novo. – Mentira, gostava de sentir em suas axilas o cheiro quente de Andrea e imaginar-se afundando o nariz em seu pescoço. Um arrepio pela nuca, e a confusão na cabeça.

Juliana se adiantou para pegar o desodorante, e suas mãos se tocaram. O vestiário quase vazio, todas as meninas já estavam no chuveiro. Seus olhares se encontraram, e ela viu os lábios de Andrea se separarem levemente em um sorriso úmido.

“SAPATÃO!” – todas as vozes gritaram de uma vez em sua cabeça quando sua boca tocou a da amiga. Não se importava. Naquele momento só queria o amor macio de Andrea, e isso valia mais do que um match point pelo Rexona.

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Ovelha desgarrada: a menina do Mutuá https://simsaogoncalo.com.br/ovelha-desgarrada-menina-mutua/ https://simsaogoncalo.com.br/ovelha-desgarrada-menina-mutua/#respond Thu, 26 Oct 2017 15:48:35 +0000 https://simsaogoncalo.com.br/?p=5455 – Você está bem? Óbvio que ela não estava. Os cabelos cortados à máquina, rente ao couro cabeludo, deixavam entrever algumas cicatrizes, novas e antigas. Olheiras profundas deixavam o azul de seus olhos opaco, como a pintura de um Corcel II estacionado há décadas na Av. 18 do Forte. Uma calça de moletom escondia uma […]

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– Você está bem?

Óbvio que ela não estava. Os cabelos cortados à máquina, rente ao couro cabeludo, deixavam entrever algumas cicatrizes, novas e antigas. Olheiras profundas deixavam o azul de seus olhos opaco, como a pintura de um Corcel II estacionado há décadas na Av. 18 do Forte. Uma calça de moletom escondia uma provável magreza – logo Elaine, cujas formas sempre causaram inveja a todas nós – e um casaco que eu nunca tinha visto (e que já vivera dias melhores) se jogava por cima de uma camisa velha de futebol. Não dava nem pra saber se era um garoto ou uma garota.

– Estou indo… E o pessoal do Santa Mônica?

– Vão bem… Todos perguntam por você. – mentira, ninguém queria saber dela, só eu. Nem o Tiago queria ouvir falar no nome de Elaine (“Pára de falar nessa menina, ela escolheu o caminho dela e eu não quero minha namorada envolvida com esse tipo de gente”), em menos de um ano parecia que ela deixara de existir nas vidas de todos. Menos na minha.

Estudamos juntas desde o jardim. Era a minha melhor amiga, das panelinhas de plástico a confidências da puberdade. “A gente vai ser amigas para sempre, não vai?”, dizia Elaine antes das fotos abraçadas ou depois de corações partidos. Ninguém sabia os segredos que Elaine chorava em silêncio, ninguém via as marcas de cinto e mãos na sua carne branca. Nem eu.

Elaine tentava comer o copão de açaí que eu levara com alguma dignidade, mas a fome é um algoz espaçoso e desesperado. Não devia comer há dias. Tomei coragem e perguntei:

– Você volta?

– Não sei. Meu dente está sujo? – e sorriu, mostrando os dentes pretos em mais uma brincadeira antiga, só nossa. Ri também.

– Sua porca! E esse cachorrinho fofo?

– É o Bob. Coloquei essa correia velha pra servir de coleira e agora ele é meu. Não é, Bob? Não é? – o filhote de vira-lata se tremia todo de felicidade.

– É uma graça… Você está morando onde?

Pela primeira vez o semblante de Elaine se ensombreceu, e eu vi que havia feito a pergunta errada. A gente se encontrava uma vez na semana ali, na esquina da antiga escola (não do Santa Mônica, onde ninguém queria ser amigo de uma drogada refugiada do próprio lar). Eu levava açaí, algum dinheiro e um livro, mas havia perguntas que não podiam ser feitas. Sobre a droga, sobre o motivo da fuga, sobre a vida de agora.

Após um desconfortável silêncio, ela murmurou “acho melhor você ir andando. Tia Geiza deve estar preocupada”.

– Semana que vem então?

– Semana que vem, amiga. – e nos abraçamos. Tomei coragem e sussurrei em seu ouvido: “Amigas para sempre, lembra?”, apenas para abreviar o abraço e ver Elaine passar as costas da mão suja nos olhos.

Foi a última vez que vi minha melhor amiga. Toda semana apareço na mesma esquina, e levo o Harry Potter que ela havia me pedido.

Para sempre.

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Aqui, agora – saudade dos beijos no muro do Adino Xavier https://simsaogoncalo.com.br/aqui-agora-beijo-adino-xavier/ https://simsaogoncalo.com.br/aqui-agora-beijo-adino-xavier/#comments Thu, 05 Oct 2017 19:13:21 +0000 https://simsaogoncalo.com.br/?p=5459 E este é apenas o final da história. Aqui, nessa mesma esquina onde tudo começou. Você está lindo com esses cabelos já salpicados por intrusos fios brancos. Eu me sentia velha até agora, então seus olhos pousaram em mim e tiraram a teia desses trinta anos. Mas este é só o final. Aqui não tem […]

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E este é apenas o final da história. Aqui, nessa mesma esquina onde tudo começou. Você está lindo com esses cabelos já salpicados por intrusos fios brancos. Eu me sentia velha até agora, então seus olhos pousaram em mim e tiraram a teia desses trinta anos. Mas este é só o final.

Aqui não tem o estranhamento de nos reconhecermos almas gêmeas vagando por este mundo até aquele encontro na porta da Hollywood. Aquele dia nós nem entramos, ficamos conversando no muro do Adino Xavier por todo o tempo que tínhamos até que se acabasse a matinê e nossos amigos voltassem para casa. Na hora de ir embora você me falou que podia até estar confundindo as coisas e não queria perder a minha amizade, mas que estava louco para dar um beijo em minha boca. Você escondia as mãos para trás e olhava para a ponta do Nauru, encabulado, e eu achando que você ficava lindo com as bochechas rosadas de vergonha e que nunca tomaria coragem de me pedir aquele beijo.

Aqui não tem a primeira vez em que nos amamos, os dois inexperientes realizando um desajeitado e cômico balé no sofá velho que a minha mãe deixava na varanda. Aquele sofá não está aqui também, mas talvez nele tenhamos vivido os melhores momentos de nossa paixão, os melhores beijos, os melhores papos.

Ainda tem o Caneco 90, ali na frente, mas não tem os vinte anos que passei fora de São Gonçalo, vivendo em um casamento que me deu dois filhos, 25 quilos e me levou o sobrenome de minha mãe. Não tem as brigas, as taças quebradas, nem os telefonemas interurbanos na madrugada para o seu trabalho para perguntar amenidades apenas pelo prazer de ouvir a sua voz. Não tem aquela menina que você me apresentou como sua esposa (a terceira ou a quarta?) uma vez no Plaza Shopping, em uma das raras vezes em que eu atravessava a Baía de Guanabara de volta e que ficou de bico enquanto a gente dava gargalhadas na praça de alimentação lembrando dos velhos tempos, dos velhos points – e daquele Nauru desbotado que você teimava em usar.

Aqui não tem o enterro de meu filho, a bandeira do Vasco sobre o caixão, os seus óculos escuros a me observarem do fundo da capela enquanto eu me inumanizava em lágrimas. Não tem a sua reabilitação, nem os espasmos febris de sua abstinência – assim você me contou uma vez, já que eu não estive perto. Não tem aquele Palio que você destruiu no poste em frente à prefeitura, e que levou dois de seus amigos e sua última esposa.

Aqui só temos eu e você. E uma saudade imensa. E o muro do Adino Xavier, e o prédio da antiga Hollywood, o Caneco 90 à frente e o conjunto de prédios que na época era novo e que agora nem é mais, assim como nós.

E uma vontade louca de te beijar de novo, como naquela noite, há 30 anos. Porque este é apenas o desfecho de mais uma história que demorou, mas está prestes a encontrar o seu final feliz.

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Amor em trânsito: “Nunca mais boto meus pés no Arsenal!” https://simsaogoncalo.com.br/amor-em-transito-nunca-mais-boto-meus-pes-no-arsenal/ https://simsaogoncalo.com.br/amor-em-transito-nunca-mais-boto-meus-pes-no-arsenal/#comments Thu, 21 Sep 2017 16:58:59 +0000 https://simsaogoncalo.com.br/?p=5440 No último banco do 43, Bruno mordia os lábios para não chorar. Seu coração não tinha dúvidas quanto ao seu amor por Jaqueline, mas em sua cabeça pesavam as consequências do deslocamento quase diário, por entre tantos quilômetros e conduções fedorentas para encontrar a paz daquele sorriso. Bruno morava na Trindade. São Gonçalo é enorme, […]

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No último banco do 43, Bruno mordia os lábios para não chorar. Seu coração não tinha dúvidas quanto ao seu amor por Jaqueline, mas em sua cabeça pesavam as consequências do deslocamento quase diário, por entre tantos quilômetros e conduções fedorentas para encontrar a paz daquele sorriso.

Bruno morava na Trindade. São Gonçalo é enorme, mas a precariedade do transporte público inviabilizava amores à distância. Conhecera Jaqueline em uma peça no SESC, e se apaixonara de cara. Jack era amiga de amigos, e os dois grupos decidiram esticar da peça para o Bar do Blues, e lá sentiu o vento passar por dentro de seu estômago quando seus lábios a tocaram pela primeira vez.

De lá pra cá, três anos, hoje. Não via a hora de terminar a faculdade e começar a trabalhar. Jack se enquadrara de recepcionista em uma clínica assim que terminou a escola e nunca mais saiu. “Vale a pena, vai chegar a hora em que não vou precisar ir embora depois do Fantástico”, ele pensava a cada noite em que saltava no Alcântara deserto para pegar o 409 e voltar pra casa, depois de horas de varanda. Mas não daquela vez.

O celular vibrava em seu bolso. Sabia que era ela, mas não daria o braço a torcer, não aceitaria as desculpas desta vez. Chegara da faculdade, tomara banho correndo e partira para sua viagem. O ABC lotado saindo da Trindade, o Rosana que parecia nunca vir. Saltar na estrada, ziguezaguear as ruas de terra (bom, pelo menos não havia chovido), para não encontrar Jaqueline em casa. Justo naquele dia? “Da próxima vez, namoro alguém do Mutondo, ou Porto Novo.”

Jogou as flores numa lixeira no Alcântara. No 409, ruminava a ideia de como terminar o namoro. Não poderia dizer que era apenas a distância, mas estava muito puto por ter ido mais uma vez à toa pro Arsenal. “Aposto que vai dizer que o consultório fechou tarde”, mas quando finalmente pegou o celular, a bateria tinha acabado.

Desceu do ônibus, passou na padaria e comprou dois litrões. Entrou em casa cabisbaixo, sua mãe na sala assistia ao jornal e ainda chamou seu nome, mas ele não queria papo. Colocou uma garrafa na geladeira e abriu a outra, bebendo um pouco do gargalo antes de pegar o copo no armário, dando desculpa para as lágrimas.

– Você não atende celular não? – a voz de Jaqueline em suas costas quase o fez engasgar. – Quis te fazer uma surpresa, peguei o táxi em Icaraí e vim direto pra cá. Feliz aniversário de namoro.

Quando virou, ela estava linda, com um buquê de flores na mão – parecido até com o que jogara fora no Alcântara.

De repente, a distância entre Trindade e Arsenal se resumiu a apenas um beijo. Mesmo longe muitas vezes, ainda existe amor em São Gonçalo.

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A pobreza se tornou ilegal em São Gonçalo https://simsaogoncalo.com.br/pobreza-se-tornou-ilegal-em-sao-goncalo/ https://simsaogoncalo.com.br/pobreza-se-tornou-ilegal-em-sao-goncalo/#respond Thu, 22 Jun 2017 15:48:31 +0000 https://simsaogoncalo.com.br/?p=4724 Se a Lei Nº 7 der certo em São Gonçalo, onde raças se misturam e os índices sociais são baixos, servirá de modelo para outras regiões. A cidade de São Gonçalo, dona da segunda maior população do Estado do Rio de Janeiro, acordou diferente nesta manhã: a Lei Nº 7, que torna a pobreza ilegal, […]

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Se a Lei Nº 7 der certo em São Gonçalo, onde raças se misturam e os índices sociais são baixos, servirá de modelo para outras regiões.

A cidade de São Gonçalo, dona da segunda maior população do Estado do Rio de Janeiro, acordou diferente nesta manhã: a Lei Nº 7, que torna a pobreza ilegal, foi aprovada ontem em definitivo pela Câmara de Vereadores. São Gonçalo orgulha o Brasil por ser a primeira cidade do mundo a criminalizar a pobreza.

O morador de rua, em condições insalubres, ou quem não tem o que comer pode prestar queixa contra a Prefeitura na delegacia. Se comprovado que houve negligência assistencial, os funcionários públicos responsáveis podem ser presos.

Exigiu bastante esforço dos vereadores a aprovação da Lei de Repúdio à Pobreza, como também é chamada a Lei Nº 7. O prefeito vetou integralmente o projeto alegando “contrariedade ao interesse público”. Apelando à Constituição Federal, que estabelece moradia e alimentação entre os direitos sociais brasileiros, os defensores do projeto na Câmara conseguiram maioria simples para derrubar o veto.

Dona Maria, esposa de Seu José, morava na rua com seu marido há dois anos, desde que fugiram da seca do sertão pernambucano para tentar sobreviver em São Gonçalo. Eles foram os primeiros a denunciar sua penúria e ganharam na Justiça o benefício do aluguel social e uma ajuda de custo mensal equivalente a um salário mínimo.

A classe média gonçalense, empresários e pessoas que dizem que se esforçaram para vencer na vida sem jamais receber auxílio financeiro, que são contra a existência de cotas e acordam cedo todos os dias para trabalhar foram veementemente contra a Lei. Protestaram nas principais avenidas da cidade porque “não são obrigadas a sustentar vagabundos”, nas palavras delas. A Federação das Indústrias de São Gonçalo (FISG) emitiu uma nota de repúdio, redigida pelo Movimento São Gonçalo Livre (MSL), à lei que repudia a pobreza.

Mas os recursos necessários para atender à população já existiam através do Fundo de Combate e Erradicação da Pobreza (que incide sobre alguns produtos passíveis de cobrança de ICMS), antes usado pelo governo do Estado do Rio para tapar buracos da crise financeira provocada por Cabral e companhia.

Defensores da lei afirmam que os gonçalenses – e todos os seres humanos – são responsáveis uns pelos outros. Sendo impossível alguém se tornar rico, ou de classe média, vivendo em isolamento, e a riqueza praticável apenas em sociedade, onde o dinheiro é usado na aquisição de bens e serviços criados por outros indivíduos, a mesma sociedade é obrigada a amparar os necessitados.

O projeto despertou o interesse de instituições de combate à pobreza da Organização das Nações Unidas. Se a Lei Nº 7 der certo em São Gonçalo, onde raças se misturam e os índices sociais são baixos, servirá de modelo para outras regiões.

Percebendo a atenção externa e o desperdício de uma oportunidade política, logo a FISG e o MSL publicaram na Internet um pedido de desculpas pela análise precipitada da Lei.

Em cada discurso de votação, os vereadores exaltaram a igualdade social. Ganhando R$ 15 mil por mês, enquanto a renda per capita no município é inferior ao salário mínimo, eles estudam reduzir seus salários em 50% em um projeto seguinte.

Além de moradia e bolsa-auxílio, o ex-pobre receberá noções de negócios e será incentivado a criar cooperativas e a buscar emprego no mercado formal. Os gonçalenses se olham nas ruas hoje com mais respeito e compaixão.

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O esquema para recuperar o carro do prefeito https://simsaogoncalo.com.br/o-esquema-para-recuperar-o-carro-do-prefeito/ https://simsaogoncalo.com.br/o-esquema-para-recuperar-o-carro-do-prefeito/#respond Fri, 02 Jun 2017 18:13:58 +0000 https://simsaogoncalo.com.br/?p=4660 O que você lerá a seguir é uma narrativa de ficção, inspirada na realidade gonçalense. Contrariado, o secretário mandou duas mensagens pelo WhatsApp, a primeira para o seu braço direito, responsável pelo Serviço de Inteligência, e a segunda para o comandante da Guarda Municipal. O conteúdo foi o mesmo: “Roubaram carro prefeito corola prata atividade”. […]

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O que você lerá a seguir é uma narrativa de ficção, inspirada na realidade gonçalense.

Contrariado, o secretário mandou duas mensagens pelo WhatsApp, a primeira para o seu braço direito, responsável pelo Serviço de Inteligência, e a segunda para o comandante da Guarda Municipal. O conteúdo foi o mesmo: “Roubaram carro prefeito corola prata atividade”.

O telefone do Secretário Municipal de Segurança Pública tocou depois das nove da noite.

– Porra, secretário, acabaram de roubar o carro do prefeito! Meteram a pistola na nossa cara e ameaçaram matar o homem aqui na Rua General Barcelos, esquina com a Avenida Presidente Kennedy.

– O que vocês estavam fazendo aí a essa hora, Marcão? Já disse que a cidade está violenta, o prefeito precisa encerrar o expediente mais cedo.

– A gente trabalhou até tarde hoje pra resolver aquela merda do lixo que não é recolhido. No caminho pra casa dele, dois marginais apareceram do nada na frente do carro gritando “Perdeu, perdeu”. Só deu tempo de sair do veículo.

– Tá. Pega um Uber aí, leva o prefeito pra casa e amanhã a gente conversa. Quem está perdendo o capítulo da novela sou eu.

– Vê o que o senhor pode fazer, por favor.

Contrariado, o secretário mandou duas mensagens pelo WhatsApp, a primeira para o seu braço direito, responsável pelo Serviço de Inteligência, e a segunda para o comandante da Guarda Municipal. O conteúdo foi o mesmo: “Roubaram carro prefeito corola prata atividade”. Quando recebeu a confirmação de visualização das mensagens, o secretário de Segurança Pública se sentiu mais tranquilo. No dia seguinte um agente secreto da Inteligência deu o pronto.

– Secretário, achamos o carro do prefeito. Mandamos deixar lá em Guaxindiba.

– Ótimo, depois entrega a conta do resgate ao secretário de Fazenda e diz que eu mandei. Qual o estado do veículo? Algum estrago?

– Não, tá inteiro. Tem os pertences do prefeito, do Marcão e também tá cheio de bolsa, celular, relógio… usaram o carro pra fazer arrastão até Itaboraí.

– Esses caras estão de sacanagem, não respeitam nem o prefeito, são uns animais.

– É, desse jeito não dá pra trabalhar. Não se contentam em roubar só a população. O senhor vem pro local?

– Guaxindiba é longe pra cacete, vou não. Ainda nem tomei café.

– A imprensa chegou antes da gente, estão fotografando o veículo. O comandante da Guarda Municipal acabou de chegar.

– Merda, então tenho que ir. Segura os jornalistas aí que eu preciso aparecer na foto, senão vão achar que foi só trabalho da Guarda. A oposição tá querendo derrubar todo mundo.

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Liga o alerta aí, amor https://simsaogoncalo.com.br/liga-o-alerta-ai-amor/ https://simsaogoncalo.com.br/liga-o-alerta-ai-amor/#respond Thu, 25 May 2017 20:11:08 +0000 https://simsaogoncalo.com.br/?p=4655 Liga o alerta aí, amor, acende a luz interna e abaixa o farol e os vidros do carro. Liga o alerta aí, amor, porque você está entrando em São Gonçalo. Nossa cidade é escura e o motorista que esquece de piscar as luzes do veículo entra em depressão. Não me entenda mal, não é uma […]

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Liga o alerta aí, amor, acende a luz interna e abaixa o farol e os vidros do carro.

Liga o alerta aí, amor, porque você está entrando em São Gonçalo. Nossa cidade é escura e o motorista que esquece de piscar as luzes do veículo entra em depressão.

Não me entenda mal, não é uma ameaça. Castigo da insensibilidade humana no século 21, ligar o alerta para afastar a depressão é altamente recomendável. Além disso, o Brasil é o 8º país com mais suicídios no mundo. Combinado esse índice com a grande quantidade de lâmpadas queimadas nos postes, corremos o perigo da tristeza à noite.

Tirando as lâmpadas queimadas e o engano que cometeram com o prefeito (a Guarda Municipal rebocou o carro dele), São Gonçalo vai muito bem, obrigado. As brigas entre grupos de escoteiros – que estavam levando a população à loucura – diminuíram bastante. As coisas estão no seu devido lugar, cada um respeita o espaço do outro.

Em muitos bairros foram criadas ruas exclusivas para o lazer e segurança da população, como aquelas que existem na Barra da Tijuca. Para fazer o isolamento as associações de moradores usaram paletes que pegaram no CEASA, pintaram de branco e penduraram flores, ficou uma coisa linda. Enquanto na Barra os caras têm dinheiro pra instalar cancelas que sobem e descem tocando música clássica, com vigia, wifi e tudo. A diferença fica na qualidade da infraestrutura. A satisfação que existe lá, temos aqui.

Somos uma cidade alegre, mas pobre e sem árvores no centro urbano, não dá pra comparar tanto com os bairros nobres do Rio. Ah, o Rio de Janeiro tem um agravante: bandidos demais. Tenho medo de andar naquele lugar.

Colocamos os meninos a partir de 14 anos uniformizados no topo do morro pra vigiar a circulação de motoristas depressivos. Como frequentemente são liberados mais cedo da escola, conseguem conciliar os estudos com a carreira, remunerada, de observador. Mantemos os adolescentes ocupados para que não se tornem adultos infelizes.

Em algumas ruas distribuem suco natural, sanduíche integral e açaí para a criançada. Em outras colocaram videogames e fliperamas, veja só que festa. Ajudar na recuperação de jovens com sinais de melancolia, coisa que o Estado falido não faz, é prioridade das associações.

Liga o alerta aí, amor, acende a luz interna e abaixa o farol e os vidros do carro. Sintonize o rádio naquela estação que adoro e vamos seguir em paz, com um sorriso no rosto. São Gonçalo é uma cidade livre, amiga, nada aqui é forçado não.

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O renascimento da Fazenda Colubandê https://simsaogoncalo.com.br/o-renascimento-da-fazenda-colubande/ https://simsaogoncalo.com.br/o-renascimento-da-fazenda-colubande/#comments Fri, 03 Mar 2017 13:37:41 +0000 https://simsaogoncalo.com.br/?p=4340 Geralmente escrevo apenas um artigo por semana sobre São Gonçalo, mas o renascimento da Fazenda Colubandê fez a cidade merecer um artigo extra. A Fazenda estava linda no último fim de semana. Quem não foi, perdeu. Criada pelo novo prefeito, a linha de ônibus circular que liga a Fazenda aos noventa e um bairros oficiais […]

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Geralmente escrevo apenas um artigo por semana sobre São Gonçalo, mas o renascimento da Fazenda Colubandê fez a cidade merecer um artigo extra. A Fazenda estava linda no último fim de semana. Quem não foi, perdeu.

Criada pelo novo prefeito, a linha de ônibus circular que liga a Fazenda aos noventa e um bairros oficiais facilitou o acesso ao local. A passagem custa R$ 1, preço de custo. A família gonçalense compareceu em peso: casais heterossexuais e gays, com e sem filhos; jovens, idosos, crianças, todos se divertiram.

Mais famosa novidade gastronômica nacional, os food trucks foram espalhados pelos quatro cantos da Fazenda, do portão de entrada até o entorno da pista de atletismo. Dispostos desta forma os pequenos caminhões e bicicletas equipadas com baú incentivaram a circulação geral, diferentemente do evento semelhante que ocorreu na praça Zé Garoto em junho/16, área consideravelmente menor.

O sol forte e o céu limpo tornaram o domingo memorável. Reluzindo, pintada e de grama aparada, a Fazenda Colubandê deixava o céu e o sol ainda mais belos, não o contrário. O brilho da alegria no ar ofuscava. Nem de longe lembrava aquele imóvel decadente onde vândalos urinavam, defecavam e largavam camisinhas usadas. O melhor ponto turístico gonçalense precisava de um pouco de respeito, carinho e atenção, nenhuma reforma profunda foi necessária.

Enquanto apreciavam seu lanche preferido sentados à sombra num dos característicos banquinhos de madeira rústica, os pais deixavam os filhos aos cuidados dos monitores para um passeio pelo complexo com direito à aula de História. O circuito incluía o orquidário, espaços de convivência, a capela, a sede e seu subsolo, onde no passado existiu uma senzala.

Como fazem há anos, o Recicla Leitores distribuiu livros de graça. Um charme a mais ver obras literárias espalhadas no chão, em vez de copos plásticos, e dezenas de crianças empolgadas em volta, ao pé da palmeira gigante.

São Gonçalo num imenso piquenique, tantas eram as toalhas espalhadas pela grama verde. Crianças desciam as rampas de bicicleta e patinete, adolescentes conduziam patins. A pista de atletismo transbordava de corredores. Os times de basquete e vôlei aguardavam em fila sua vez de jogar diante das quadras lotadas.

Treze grupos musicais do município se apresentaram ao lado da capela. Depois das quadras, próximo à cantina, havia silêncio suficiente para conversar ou namorar.

Comi um hambúrguer gigantesco tomando chopp artesanal sentado embaixo de uma árvore. Meu filho brincava com dois novos amigos que tinham levado linha e pipa pra soltar. No final da tarde, suado e cansado, quase pulei na piscina mas a reformaram exclusivamente para as crianças, grande injustiça. Na Fazenda Colubandê restaurada falta somente uma piscina para adultos.

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Como Ele vê São Gonçalo ao anoitecer https://simsaogoncalo.com.br/como-ele-ve-sao-goncalo-ao-anoitecer/ https://simsaogoncalo.com.br/como-ele-ve-sao-goncalo-ao-anoitecer/#comments Fri, 09 Dec 2016 17:46:10 +0000 https://simsaogoncalo.com.br/?p=4181 Era domingo, 30 de outubro. Logo depois do último ao vivo sobre as eleições, fiz um voo sobre a cidade. Se foi verdadeiro ou fictício, tanto faz. O pensamento flutuava. Saboreava o privilégio de olhar as cidades fluminense de cima, coisa que seus prefeitos recém-eleitos nem faziam ideia de como estavam interessantes. Saindo do Galeão, o avião apontava a […]

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Era domingo, 30 de outubro. Logo depois do último ao vivo sobre as eleições, fiz um voo sobre a cidade. Se foi verdadeiro ou fictício, tanto faz. O pensamento flutuava. Saboreava o privilégio de olhar as cidades fluminense de cima, coisa que seus prefeitos recém-eleitos nem faziam ideia de como estavam interessantes.

Saindo do Galeão, o avião apontava a Baía de Guanabara numa velocidade ímpar. Só conhecendo bem esse estado para saber onde estávamos sobrevoando. Depois de passar pela Ilha, fundão, linha vermelha, nos deparamos com a imensidão da ponte. A democracia da noite faz com que todas as vias pareçam iguais. Até a nossa BR.

Chegando à São Gonçalo, percebi como Deus nos vê depois de cada anoitecer. Somos mais uma parte nesse emaranhado de luzes que compõe a região metropolitana do Rio de Janeiro. Mas as nossas particularidades tem um sabor especial.

Dos céus, é possível ver como somos orgânicos. Ruas que cresceram beirando rios, morros, limites geográficos que fazem desse pedacinho de terra a nossa cidade, a nossa São Gonçalo.

Desses detalhes, dois chamam mais atenção. O sobrevoo pela baía nos faz ver que a em meio à tanta organicidade, uma ordem é imposta pelo loteamento do Jardim Catarina. O Catarinão é imenso, regendo suas mais de 70 mil pessoas sob ruas retas e ortogonais. Algo que é rapidamente quebrado, com um apagão de luzes ao lado. É o início da nossa APA de Guapimirim, um restante de fauna e flora ainda mantidos ao norte da Baía, cuja bacia hidrográfica ao lado nos traz o rio Macacu, que nos irriga e justifica toda a existência de vidas de Itaboraí à Niterói.

Minutos depois, o avião subiu acima das nuvens, ainda mais perto de Deus. Ver o desenho de São Gonçalo de cima acalma. Não sei explicar, mas dá uma pista sobre o que nos mantém fortes e esperançosos em dias melhores. É como se do ponto de vista Dele, as nossas chances sejam as melhores.

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