contos Archives - Sim São Gonçalo https://simsaogoncalo.com.br/tag/contos/ A revista da 16ª maior cidade do Brasil – São Gonçalo, Rio de Janeiro Thu, 30 Nov 2023 16:43:11 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.8.3 https://simsaogoncalo.com.br/wp-content/uploads/2016/07/cropped-sim-sao-goncalo-900-32x32.jpg contos Archives - Sim São Gonçalo https://simsaogoncalo.com.br/tag/contos/ 32 32 147981209 Sorriso Amarelinho: encontros no Tinder do Plaza ao Porto da Pedra https://simsaogoncalo.com.br/sorriso-amarelinho-porto-da-pedra/ https://simsaogoncalo.com.br/sorriso-amarelinho-porto-da-pedra/#respond Wed, 10 Jul 2019 22:47:30 +0000 https://simsaogoncalo.com.br/?p=7308 Ilustração: Paulo Rodrigues (ilustrepaulo) Patrícia odiava usar salto. Parecia uma pata, se equilibrando em cima de duas lapiseiras 0.7 e puxando a saia pra baixo. Mas tinha que estar bonita. “Samuel, 38, cavalheiro, gosta de livros, sertanejo universitário e gatos. Niterói, RJ”. A foto do Tinder era bonitinha, óculos discretos, ombros e sorrisos largos. Marcaram […]

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Ilustração: Paulo Rodrigues (ilustrepaulo)

Patrícia odiava usar salto. Parecia uma pata, se equilibrando em cima de duas lapiseiras 0.7 e puxando a saia pra baixo. Mas tinha que estar bonita.

“Samuel, 38, cavalheiro, gosta de livros, sertanejo universitário e gatos. Niterói, RJ”. A foto do Tinder era bonitinha, óculos discretos, ombros e sorrisos largos. Marcaram no Outback do Plaza. Patrícia tentou ainda jogar o encontro pro início do mês seguinte, mas os papos evoluíram e a urgência do encontro a pegou dura mesmo. Lisa. Porém, o que seriam mais vinte reais de Uber do Porto da Pedra para o Plaza, pra não ter que claudicar de salto pelo terminal de Niterói e chegar linda e cheirosa?

Sentou-se à mesa do canto, e pediu apenas um chá. Sentia-se incomodada com esse negócio de conhecer pessoas por aplicativos, mas qual era a solução? Trabalhava como uma louca pra não morrer de fome, não tinha condições e nem tempo de estabelecer relacionamento em baladinha noturna. E nem idade mais pra isso, né? Paciência zero com essa molecada de energético e carro do papai.

Terceiro refil de chá gelado, suor já fazendo brilhar o colo exposto pelo decote, e nada do Samuel. “A senhora quer fazer o pedido?”, “Não estou esperando alguém”; a garçonete fez um ligeiro muxoxo, Patrícia sentiu. E sentia fome também. “70 reais num bife? Deuzolivre!”, ela pensava, enquanto chupava o gelo do chá – que pelo menos era refil, pagava uma vez só.

E foi só o que ela pagou. Samuel enviou mensagem dizendo que havia tido um problema no serviço, e que infelizmente não poderia encontrá-la. “E se ele me viu aqui e não gostou?”, porque não bastava a conta estar no vermelho, a autoestima precisava acompanhar. Vinte reais pelo chá gelado, os vinte reais do Uber que a levariam de volta pra casa. “Antes não tivesse pagado os dez porcento”, mas foi tudo no cartão.

Patrícia então andou do Plaza até o terminal. Pedras portuguesas, ranhuras no asfalto, copos de guaravita, tudo era atrativo para os saltos e impropérios. O 526 ainda ficava na plataforma 5, então ainda teve que mancar pelos transeuntes que cortavam o terminal, uns voltando do trabalho, outros indo para a noite. O ônibus era aqueles da frota antiga, sem ar condicionado e, pra piorar, não tinha mais lugar sentado. Patrícia foi em pé sobre seus tão odiados saltos até o Porto da Pedra. Com fome.

Decidiu descer no Amarelinho. Abancou-se com decote e perfume, e pediu um angu – livrando-se logo dos saltos pra sentir o chão de cimento batido na meia-calça. Sua fome não cabia em um bife de setenta reais, mas o angu do Amarelinho, do alto de seus catorze reais – fora o chorinho! – seria suficiente, para engolir acompanhado de comiseração e auto piedade. Não tinha a meia luz do Outback, nem as paisagens desérticas da Austrália na parede, mas servia. O Amarelinho era iluminado por lâmpadas fluorescentes antigas, uma TV que passava algum jogo de futebol e mesas de plástico azuis com patrocínio de cerveja. Mas a comida era barata e decente. Fora a cerveja, sempre gelada.

– Acabou com a pimenta?

Patrícia acordou de sua pesca minuciosa dos miúdos que boiavam sobre o angu com aquela voz grave, leve sotaque nordestino. Ombros largos.

– Cuidado, essa tá forte, hein? – disse, sendo simpática.

– Eu prefiro assim, quando a pimenta é ruim.

– Não disse que era ruim, é gostosa.

– Não, ruim porque maltrata o cabra. – e deu um sorriso, mais largo que os ombros. Patrícia sorriu de volta, ele olhou para seus pés.

– Dia difícil?

– É… Alguns dias são assim. Tipo a pimenta que você gosta.

– Deixa eu pegar mais uma então pra aliviar. Posso me sentar contigo quando voltar?

Patrícia nem teve tempo de responder, o moço já havia saído na direção do balcão. Depois de uma viagem frustrada para uma Austrália fake, encontrava agora o sorriso que pelo qual procurava ali, no Porto da Pedra.

E descalça.

Damiana Duarte

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Pequenos detalhes https://simsaogoncalo.com.br/pequenos-detalhes/ https://simsaogoncalo.com.br/pequenos-detalhes/#respond Mon, 11 Jun 2018 21:44:43 +0000 https://simsaogoncalo.com.br/?p=6443 Um grande amor é formado por uma vasta colheita de pequenos detalhes. Você salvou a minha vida pelo menos duas vezes – aquela em que a gente passou no meio do tiroteio e você deu a ré no carro do teu pai pra fugir foi uma delas – mas são os passos mínimos do balé […]

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Um grande amor é formado por uma vasta colheita de pequenos detalhes. Você salvou a minha vida pelo menos duas vezes – aquela em que a gente passou no meio do tiroteio e você deu a ré no carro do teu pai pra fugir foi uma delas – mas são os passos mínimos do balé da convivência que me fazem falta.

Você não largava a toalha na cama, mas a deixava pendurada na porta de qualquer jeito, toda amarfanhada, e ela continuava molhada do mesmo jeito. Mas você também tinha a mania de esticar a passadeira da cozinha porque tinha medo de que eu caísse. “Vocês parecem que têm o pé de enceradeira”, toda vez, e eu ria, tentando imaginar o que seria um pé de enceradeira. Você fazia café pra mim, o melhor café que eu já tomei em toda a minha vida. Eu sentada no sofá, mexendo no celular, e você vindo com aquela caneca do nosso enxoval – aquela branca, com uma rachadura visível e que você não deixava eu jogar fora – e o café fumegando (“não pode deixar a água ferver senão cozinha o pó”; cheio de métodos, o seu pequeno mundo caótico). E agora, que você se foi, quem vai fazer café pra mim?

Sua voz se levantava uma oitava quando falávamos de amor. Você franzia o nariz sem perceber, e fazia uma cara de menino envergonhado que você deve ter feito no primeiro amor. Eu só especulava tal evento, claro, sem o menor ciúme dessa menina, porque tenho certeza de que ela não percebeu, e nem você. Mas eu achava bonitinho quando você queria pedir alguma coisa, e encostava a testa na minha, olhava e falava baixo. Eu ouvia, ouvi todas as vezes, mas perguntava “o quê?” só pra você repetir novamente – às vezes mais de uma vez, porque gostava também do tom de sua voz quando se exasperava de leve (não brigando, essa melodia nunca me agradou). Eu conhecia cada nota, cada escala que sua voz solfejava na vida e as lia como partituras em braile. E não pude ouvir o seu compasso final.

Você ria das piadas da TV, de pessoas se estuporando nas tardes de domingo por tentarem coisas idiotas enquanto o Faustão desfilava seus bordões rotos. Nomeava cada cinema que São Gonçalo já teve (“Aqui em Santa Catarina era o Cine Floresta!”) toda vez que passava por um, apenas para dizer “esta cidade já teve onze cinemas de rua”, e sempre terminava falando do cinema da Venda da Cruz e sua sessão dupla de sexo e caratê. Dessa vez eu não ria apenas para te agradar, eu realmente achava engraçado os nomes dos filmes e suas combinações (“Era ‘Operação Dragão´ em letras maiores e ‘Minha cabrita, minha tara’ embaixo, dá pra acreditar?”, e eu ria e ria dentro do carro). Do que eu vou rir agora?

Os risos, as falas, as falhas, a coreografia cotidiana da rotina em que rodávamos no salão da vida, olhando para a orquestra a esperar a próxima música e não percebíamos os sublimes movimentos que fazíamos na pista lotada. Os gigantescos detalhes mínimos que constroem um amor tão bonito como o nosso, e que nos envolvia de forma tão aconchegante quanto um edredom velho – como aquele, do mesmo enxoval que a xícara rachada.

E agora, sem você aqui, a realidade é uma colcha esburacada, com a qual tento me cobrir para me proteger de todo frio do mundo.

Ilustração: Paulo Rodrigues (@ilustrepaulo)

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Dureza – a pílula azul de Bernardo da Trindade https://simsaogoncalo.com.br/dureza-pilula-azul/ https://simsaogoncalo.com.br/dureza-pilula-azul/#respond Fri, 25 May 2018 17:03:54 +0000 https://simsaogoncalo.com.br/?p=6437 – Deu duro, tome um Dreher. A frase da propaganda antiga ecoava na cabeça de Bernardo, enquanto se mirava no espelho do banheiro. Parecia olhar um estranho, já que o homem no espelho envelhecera muito desde a última vez que estivera ali, com aquela mesma companhia. O homem no espelho não era ele. Há trinta […]

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– Deu duro, tome um Dreher.

A frase da propaganda antiga ecoava na cabeça de Bernardo, enquanto se mirava no espelho do banheiro. Parecia olhar um estranho, já que o homem no espelho envelhecera muito desde a última vez que estivera ali, com aquela mesma companhia. O homem no espelho não era ele.

Há trinta anos, naquele mesmo motel, dois jovens apaixonados fundiram seus corpos em um, recitando baixinho juras de amor eterno e rindo de doces amenidades. O quarto era mais modesto – as rendas de um jovem não dão direito a luxos – mas fora ali mesmo que Bernardo e Nathália haviam sido tão felizes (o motel mais perto, o que menos maltrataria o taxímetro).

– Você não vem? – a voz de Nathália passava pela porta do banheiro. Trinta anos depois, o frio na barriga, a antecipação do toque, o cheiro dilatando as narinas. Os dois haviam se casado, construído suas famílias – em separado, cada um com a sua. Encontravam-se muito ocasionalmente pela cidade, entre ônibus, filas de banco e supermercados. Enquanto Bernardo era substituído gradualmente por aquele homem no espelho, a vida esculpira Nathália com os caprichos de um ourives, engastando aqui e ali pedras de beleza em carne. Um esbarrão casual, oito palavras, doze olhares, e em menos de uma semana estavam ali. E tudo que Bernardo queria agora era um Dreher. Sua mão direita apertava uma decisão difícil, e seus punhos cerravam mais que os dentes.

Afinal, o homem no espelho não era mais um garoto. “Prefiro morrer a ficar brocha!”, dizia a seus amigos dos bares da Trindade, alardeando sempre a falsa confiança de macho latino herdada de não sei quando. A frase passara de engraçada a desafiadora e, com o tempo, foi substituída por “os dois piores momentos da vida de um homem são a primeira vez que ele não consegue dar a segunda e a segunda vez que não consegue dar a primeira!”. Risos – agora tensos – e mais uma rodada de cervejas. O sol do vigor ia se pondo vermelho no horizonte para todos, e os chistes viravam folclore.

Mas a vida era boa demais, e os interesses iam aos poucos se sobrepondo. A primeira vez da segunda chegou, a segunda vez da primeira, e a vida corria. “Nunca irei tomar nenhum remédio para ereção”, era agora o lema dos 50 anos, que ecoava mais em sua cabeça que por sobre o tira-gosto. Não se importava mais tanto com essa questão, sexo, performance, atletismo horizontal. Assumia seu poente com orgulho e altivez, e aguardava apenas o óbito final da paixão. Até aquele momento.

– Já vou, Nat! – abriu a mão, e o comprimido azul brotou no meio da palma esbranquiçada pela força. A decisão era difícil, o rosto tenso do Bernardo no espelho parecia cobrar a sua dignidade. E então relaxou, exibindo as linhas nos cantos dos lábios e sob os olhos. O homem no espelho ainda era ele, e dignidade e orgulho são penduricalhos que comprometem a aerodinâmica do amor.

A pílula azul voou para dentro de sua boca, e Bernardo saiu do banheiro para ganhar a suíte do Motel Green, onde Nathália o esperava ansiosa e tímida como a menina de 30 anos atrás.

Não sem antes trocar um olhar de cumplicidade com o espelho.

Ilustração: Paulo Rodrigues (@ilustrepaulo)

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Por três vezes https://simsaogoncalo.com.br/por-tres-vezes/ https://simsaogoncalo.com.br/por-tres-vezes/#respond Wed, 16 May 2018 17:33:16 +0000 https://simsaogoncalo.com.br/?p=6441 Na primeira vez eu tinha catorze anos. Veja bem, catorze anos não é uma idade, é um evento longo que dura pelo menos uns mil dias. Na cômoda do teu quarto ainda tem um ou dois bonequinhos articulados, ao lado de um perfume da Boticário e de uma lâmina de barbear que seu tio engraçadinho […]

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Na primeira vez eu tinha catorze anos. Veja bem, catorze anos não é uma idade, é um evento longo que dura pelo menos uns mil dias. Na cômoda do teu quarto ainda tem um ou dois bonequinhos articulados, ao lado de um perfume da Boticário e de uma lâmina de barbear que seu tio engraçadinho te deu e que não verá qualquer tipo de pelo ainda por um bom tempo. Gibis da Marvel e revistas de videogame compartilham sorrateiramente o espaço com revistas de mulheres nuas (não tinha internet, o mundo era mais duro àquela época), e você ainda sonha com a textura de um mamilo sob o tecido sintético do sutiã – bom, acho que já deu pra entender.

Ela era bonitinha, até. Mais baixa do que eu (o que não era demérito, eu sempre fui um pouco mais alto do que deveria), cabelos pretos, vestidinho de alcinhas. A festa era no playground do prédio do tio engraçadinho e como não me foi dada a opção de ficar em casa e jogar bola na rua, cruzei a Avenida da Contorno pra lá, para festinha de meu primo pequeno em Icaraí, com a família. Coloquei uma roupa mais “homenzinho” (meu pai me levara na Impecável Maré Mansa, e agora eu tinha camisa de botão e sapato), e fiquei surpreso ao ver que a festa não era só crianças remelentas correndo como loucas para lá e para cá, tinha uma menina de minha idade. Irmã de algum daqueles pirralhos, estava enfadada girando o refrigerante no copo de plástico como se fosse scotch. “Você não quer brincar também?”, perguntei sarcasticamente (deve ter sido deboche ainda, sarcasmo requer treino) e me sentei ao lado dela. De camisa de botão, sapato e cinto, eu me sentia um imberbe Humphrey Bogart.

Ela apenas riu, e eu não quis dar espaço. Disse-lhe meu nome, e arranquei-lhe o dela. E só. Para não ficar o silêncio constrangedor, emendei um comentário tolo e genérico.

– Criança é bicho estranho, não é? Correndo e gritando o tempo inteiro, só para pra comer.

– É, parece que veio tudo de São Gonçalo, essas crianças mal educadas.

Gelei. E agora foi ela que não deu espaço.

– Você é de onde?

– Moro no Rio.

Eu não podia, não devia, não queria falar que era de São Gonçalo. Engraçado que agora, olhando no retrovisor – onde tudo é menor –  eu nem creio que isso seria empecilho para aqueles beijos furtivos na escada do prédio dela, mas na hora achei que seria minha sentença de derrota, ou de morte, e neguei São Gonçalo pela primeira vez.

Na segunda vez eu era adulto, e nem dei importância. “Onde você mora lá no Rio?”, disse a morena em Olinda, com saias de frevo e os dentes mais brancos que já vi. “Moro na Tijuca”, e foda-se. Dessa vez nem foi vergonha, ia dar trabalho mesmo pra explicar em pleno carnaval onde ficava o subúrbio do subúrbio.

Agora, a menina que parece com a Patrícia França em Renascer (minhas referências são tão velhas quanto eu) volta do toilette desse bar cheio de frescuras que a turma do escritório escalou para o happy hour, e eu tenho certeza de que ela vai perguntar. Já concordamos que precisamos ir para algum lugar mais tranquilo onde possamos conversar (balela, senha compartilhada entre adultos que querem se conhecer melhor – biblicamente, inclusive e inclusivo), e eu sei que ela vai perguntar.

E antes do galo cantar, eu negarei São Gonçalo mais uma vez.

Ilustração: Paulo Rodrigues (@ilustrepaulo)

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Eu vi nosso amor na poeira – o casal do Engenho Pequeno https://simsaogoncalo.com.br/eu-vi-nosso-amor-na-poeira/ https://simsaogoncalo.com.br/eu-vi-nosso-amor-na-poeira/#comments Wed, 09 May 2018 14:24:11 +0000 https://simsaogoncalo.com.br/?p=6448 Um soco na cara, no cinema, é sempre um acontecimento estético, com dinâmica e plasticidade admiráveis. Um soco desses na vida real é um acontecimento duro e de difícil digestão. Senti a aspereza dos nós dos dedos de Túlio atingindo o osso que fica debaixo do meu olho e o empurrando para baixo, espremendo a […]

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Um soco na cara, no cinema, é sempre um acontecimento estético, com dinâmica e plasticidade admiráveis. Um soco desses na vida real é um acontecimento duro e de difícil digestão. Senti a aspereza dos nós dos dedos de Túlio atingindo o osso que fica debaixo do meu olho e o empurrando para baixo, espremendo a carne mole de meu rosto. “Neném” – ele balbuciou – “eu… eu…”. Sentada no chão do box, me apoiando no tanquinho, eu via sua cara transtornada diminuir pelo inchaço progressivo de meu olho direito. Nunca mais, Túlio. Nunca mais.

Quando entrei no banheiro apertado do apartamento onde morávamos no Engenho Pequeno, ele estava sentado no vaso, de bermudas e camisa do Fluminense, com a cara enfiada na pia. Debaixo do seu nariz, duas trilhas de poeira branca sobre o espelho retirado da parede. Debaixo do meu nariz, ele voltava a cheirar aquela merda. “Calma, Neném… Eu posso explicar…”, ficando de pé imediatamente e erguendo as mãos como uma criança flagrada roubando brigadeiro da mesa de aniversário. Explicar o caralho, eu disse, com duas oitavas acima na voz. Seis meses morando naquele muquifo, botando comida na mesa às custas de hora extra, saltando no Pita e andando toda a Mentor Couto sobre scarpins para não pagar mais uma passagem e agora esse desgraçado volta a cheirar? Peguei o espelho, levantei a tampa do vaso e assoprei aquela poeira maldita pra dentro da água, na louça manchada de ferrugem acobreada. Quando me virei, a mão fechada de Túlio preencheu meu campo de visão.

“Vamos pra casa, meu amor, são duas da manhã”. Descalço, molhado da garoa fina que caía sobre o Coelho, eu tentava arrastá-lo dali. Nenhum táxi quis entrar naquelas ruas de terra (“Na Cerâmica, senhora? Sem chances”), então eu fui andando, melando os scarpins que eu era obrigada a usar na Imobiliária. “Eu preciso… Preciso…”. As narinas estavam avermelhadas, agravadas pela coriza constante e pelas costas da mão ásperas que tentavam em vão limpar a sujeira entranhada na alma. “Neném…” Túlio estava apenas de bermuda jeans, sem carteira, tênis, camisa ou volição alguma. “Seu amor… Seu amor me salva…” E eu acreditei. Levei-o pra casa, empacotamos o que podíamos e no dia seguinte arrumamos a quitinete no Engenho Pequeno. “Aqui pelo menos ele não conhece ninguém”, eu pensava enquanto ele me prometia parar e arrumar outro emprego como o que perdera por causa do vício. Enquanto eu trabalhava para construir uma vida nova para nós dois. E isso durou apenas seis meses.

“Isso é cocaína, Túlio?”, falei com o saquinho vazio na mão. “Calma, Neném, eu posso explicar…”, ele disse pela primeira vez. Gostava de cheirar nos finais de semana, era apenas um “usuário recreativo”. “Quando a gente se conheceu eu estava cheirando, isso fez com que você gostasse menos de mim? O pó não altera minha personalidade, apenas me deixa mais ligado”, ele dizia. E eu acreditei, achava que meu amor poderia salvá-lo, e as contas da casa ainda não haviam começado a desmoronar. Túlio não comprava cuecas, meias ou camisas, o dinheiro não sobrava, mas não faltava para o essencial. Bom, pelo menos não naquela época.

O pessoal da Imobiliária tinha decidido fazer a festa de final de ano no Barril 2000. Era no Centro, tinha condução pra todo mundo e a música era boa. Lá que eu conheci Túlio, um pouco mais velho que eu, charmoso com suas mechas brancas nas têmporas e bem humorado. Bebemos incontáveis tulipas, e eu nem percebia que toda hora ele ia ao banheiro. “Cara estranho”, falou Samira, colega do trabalho. “Já vai embora, neném? Mas ainda tá cedo…”, disse ele pegando no meu braço. “Por que eu ficaria?”, “por isso aqui, ó”, e me deu um  beijo que tirou todo o ar que eu tinha nos pulmões, e minha vontade de voltar pra casa. “Samira, eu vou ficar mais um pouquinho…”, e fiquei ali, e na casa dele depois disso, por mais uns oito meses. A ideia era que fosse para sempre, como todo amor.

Mas mesmo o amor tem seu ponto de exaustão, e vira pó.

Ilustração: Paulo Rodrigues (@ilustrepaulo)

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Como a mulher de Nanci se tornou Chefe de Gabinete https://simsaogoncalo.com.br/como-mulher-de-nanci-se-tornou-chefe-de-gabinete/ https://simsaogoncalo.com.br/como-mulher-de-nanci-se-tornou-chefe-de-gabinete/#comments Sun, 19 Nov 2017 10:39:33 +0000 https://simsaogoncalo.com.br/?p=5761 José Luiz Nanci e Eliane Gabriel decidem o futuro de São Gonçalo em casa, na mesa do jantar. Na noite do dia 5 de novembro, o prefeito abriu os botões da camisa até embaixo, exibindo o peito e a barriga, e o penteado da primeira-dama permaneceu intocável durante a conversa. – Querida, já nomeamos oito […]

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José Luiz Nanci e Eliane Gabriel decidem o futuro de São Gonçalo em casa, na mesa do jantar. Na noite do dia 5 de novembro, o prefeito abriu os botões da camisa até embaixo, exibindo o peito e a barriga, e o penteado da primeira-dama permaneceu intocável durante a conversa.

– Querida, já nomeamos oito parentes e não sobrou nenhum disponível pra colocarmos no lugar do Rominho. Vou precisar de você de novo até que as coisas se acalmem lá na Prefeitura.

– Você dá ouvidos demais a essa corja, Zé. Deveria ter deixado o Rômulo no Gabinete, família vem em primeiro lugar. Matamos dois leões todo santo dia: a oposição e a imprensa. Precisamos nos defender.

– Eu sei, amor, mas a pressão estava grande demais. E eu não tinha nada a dizer a favor do Rominho. É um bom menino, mas que talento ele tem? O Ministério Público está no meu calcanhar.

– E que talento eu tenho?

Acompanhou a pergunta de Eliane um sorriso sexy, provocante. Sem os sapatos, a primeira-dama tocou a virilha do marido com o pé direito por baixo da mesa. O prefeito tremeu.

– Ora, você é minha Dama de Ferro. Nossos inimigos te respeitam. Melhor ainda, eles têm medo de você.

– Eu exijo respeito de todos porque sei que meu lugar é ao seu lado e nada vai nos separar.

– Adoro quando você fala assim. Mexe comigo por dentro.

– Não perca o foco, Zé.

– Foi você quem me cutucou por baixo da mesa!

– Quando saímos de casa, logo na esquina tem gente querendo se aproveitar de você. Vamos pensar em outro nome para a Chefia de Gabinete, desde que o sobrenome seja Nanci ou Gabriel. Devemos ficar unidos.

– Pensei em convidarmos aquele administrador gonçalense que fez pós-graduação na Alemanha. O cara exerceu cargos de chefia nas maiores empresas do país.

– Não, Zé! Tem que ser parente, você precisa do nosso apoio. Estava pensando na minha prima Marta, aquela que é médica. O povo adora um doutor. Mas ela se mudou para os Estados Unidos mês passado.

– Por favor, Eliane. Estou cansado dessa vida de prefeito, não consigo mais dormir.

– Dizendo essas coisas você só nos prejudica, Zé Luiz. Seja homem.

Enfim a primeira-dama cedeu. No dia seguinte, 6 de novembro, Eliane voltou a ocupar, oficialmente, um cargo público no governo de São Gonçalo. O site da Prefeitura ainda aponta Rômulo Tarouquella, genro do casal, como Chefe de Gabinete, mas isso não importa porque a família continua unida.

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Voleio: a menina do Rodo e sua confusão de desejos https://simsaogoncalo.com.br/voleio-a-menina-do-rodo-e-sua-confusao-de-desejos/ https://simsaogoncalo.com.br/voleio-a-menina-do-rodo-e-sua-confusao-de-desejos/#respond Thu, 02 Nov 2017 18:04:34 +0000 https://simsaogoncalo.com.br/?p=5453 “Sapatão!” A palavra ecoava na cabeça de Juliana, às vezes na voz da mãe, outras nas vozes das amigas, e em algumas ocasiões em sua própria voz. No coração, uma mistura de confusão, surpresa e deleite. – Bom jogo hoje, Ju. – A voz de Andrea parecia conhecer exatamente o tom e a frequência para […]

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“Sapatão!”

A palavra ecoava na cabeça de Juliana, às vezes na voz da mãe, outras nas vozes das amigas, e em algumas ocasiões em sua própria voz. No coração, uma mistura de confusão, surpresa e deleite.

– Bom jogo hoje, Ju. – A voz de Andrea parecia conhecer exatamente o tom e a frequência para dissipar suas inseguranças. – Linda aquela bola de segunda.

“Linda é você”, pensou Juliana. No vestiário, o time de vôlei do Ensino Médio do Colégio Santa Terezinha se trocava depois do jogo. Amônia, suor e desodorante adolescente. E as costas esguias de Andrea, que mexia no armário já sem o top. “Sapatão!”, ecoou novamente.

Juliana nunca se interessara por mulheres, mas a chegada de Andrea na escola a fizera piscar duas vezes com a boca seca. Estudava ali desde o jardim, e jogava vôlei desde o Fundamental. Quando seu corpo espichou na adolescência, não saíra mais do time, e representava o Colégio em competições externas. Um professor já lhe dissera que assim que terminasse o terceiro ano ia levá-la para peneira em grandes clubes. Então, aquele ano que começara com o sonho jogar com a camisa do Rexona, agora se resumia aos lábios de Andrea, a aluna nova que não dava bola pra ninguém, e com quem logo se entendera. Bem demais.

Juliana não era gostosa para os padrões juvenis, mas sua altura e beleza chamavam a atenção. O primeiro beijo tinha sido na escola mesmo, em uma festa junina – ainda no nono ano – com um menino de sua sala. Sua mãe era rígida, e sua rotina de namoro ficava restrita à escola, sempre com rapazes. Até agora. “Sapatão!” – desta vez foi a voz do pai, advogado, católico e vascaíno.

– Você trouxe desodorante ou vai usar o meu de novo? – Andrea agora estava de frente, virada para ela. A pele de chocolate, as auréolas escuras e grandes em seios fartos, tão diferentes dos seus… Os cabelos encaracolados da colega desciam pelos ombros, e o olhar de Juliana parou nos pelos que desciam de seu umbigo até a fronteira da calcinha. – Que foi, menina?

– Não, nada… Eu aceito sim, esqueci o meu de novo. – Mentira, gostava de sentir em suas axilas o cheiro quente de Andrea e imaginar-se afundando o nariz em seu pescoço. Um arrepio pela nuca, e a confusão na cabeça.

Juliana se adiantou para pegar o desodorante, e suas mãos se tocaram. O vestiário quase vazio, todas as meninas já estavam no chuveiro. Seus olhares se encontraram, e ela viu os lábios de Andrea se separarem levemente em um sorriso úmido.

“SAPATÃO!” – todas as vozes gritaram de uma vez em sua cabeça quando sua boca tocou a da amiga. Não se importava. Naquele momento só queria o amor macio de Andrea, e isso valia mais do que um match point pelo Rexona.

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Ovelha desgarrada: a menina do Mutuá https://simsaogoncalo.com.br/ovelha-desgarrada-menina-mutua/ https://simsaogoncalo.com.br/ovelha-desgarrada-menina-mutua/#respond Thu, 26 Oct 2017 15:48:35 +0000 https://simsaogoncalo.com.br/?p=5455 – Você está bem? Óbvio que ela não estava. Os cabelos cortados à máquina, rente ao couro cabeludo, deixavam entrever algumas cicatrizes, novas e antigas. Olheiras profundas deixavam o azul de seus olhos opaco, como a pintura de um Corcel II estacionado há décadas na Av. 18 do Forte. Uma calça de moletom escondia uma […]

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– Você está bem?

Óbvio que ela não estava. Os cabelos cortados à máquina, rente ao couro cabeludo, deixavam entrever algumas cicatrizes, novas e antigas. Olheiras profundas deixavam o azul de seus olhos opaco, como a pintura de um Corcel II estacionado há décadas na Av. 18 do Forte. Uma calça de moletom escondia uma provável magreza – logo Elaine, cujas formas sempre causaram inveja a todas nós – e um casaco que eu nunca tinha visto (e que já vivera dias melhores) se jogava por cima de uma camisa velha de futebol. Não dava nem pra saber se era um garoto ou uma garota.

– Estou indo… E o pessoal do Santa Mônica?

– Vão bem… Todos perguntam por você. – mentira, ninguém queria saber dela, só eu. Nem o Tiago queria ouvir falar no nome de Elaine (“Pára de falar nessa menina, ela escolheu o caminho dela e eu não quero minha namorada envolvida com esse tipo de gente”), em menos de um ano parecia que ela deixara de existir nas vidas de todos. Menos na minha.

Estudamos juntas desde o jardim. Era a minha melhor amiga, das panelinhas de plástico a confidências da puberdade. “A gente vai ser amigas para sempre, não vai?”, dizia Elaine antes das fotos abraçadas ou depois de corações partidos. Ninguém sabia os segredos que Elaine chorava em silêncio, ninguém via as marcas de cinto e mãos na sua carne branca. Nem eu.

Elaine tentava comer o copão de açaí que eu levara com alguma dignidade, mas a fome é um algoz espaçoso e desesperado. Não devia comer há dias. Tomei coragem e perguntei:

– Você volta?

– Não sei. Meu dente está sujo? – e sorriu, mostrando os dentes pretos em mais uma brincadeira antiga, só nossa. Ri também.

– Sua porca! E esse cachorrinho fofo?

– É o Bob. Coloquei essa correia velha pra servir de coleira e agora ele é meu. Não é, Bob? Não é? – o filhote de vira-lata se tremia todo de felicidade.

– É uma graça… Você está morando onde?

Pela primeira vez o semblante de Elaine se ensombreceu, e eu vi que havia feito a pergunta errada. A gente se encontrava uma vez na semana ali, na esquina da antiga escola (não do Santa Mônica, onde ninguém queria ser amigo de uma drogada refugiada do próprio lar). Eu levava açaí, algum dinheiro e um livro, mas havia perguntas que não podiam ser feitas. Sobre a droga, sobre o motivo da fuga, sobre a vida de agora.

Após um desconfortável silêncio, ela murmurou “acho melhor você ir andando. Tia Geiza deve estar preocupada”.

– Semana que vem então?

– Semana que vem, amiga. – e nos abraçamos. Tomei coragem e sussurrei em seu ouvido: “Amigas para sempre, lembra?”, apenas para abreviar o abraço e ver Elaine passar as costas da mão suja nos olhos.

Foi a última vez que vi minha melhor amiga. Toda semana apareço na mesma esquina, e levo o Harry Potter que ela havia me pedido.

Para sempre.

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Translúcida: a travesti do porto novo, respeito e visibilidade trans https://simsaogoncalo.com.br/translucida-no-porto-novo/ https://simsaogoncalo.com.br/translucida-no-porto-novo/#respond Thu, 19 Oct 2017 20:15:13 +0000 https://simsaogoncalo.com.br/?p=5457 – Muito obrigada, senhor, tenha um bom dia. O cliente levantou a cabeça espantado, olhando pra mim como se não tivesse me visto antes. Comum, aquilo. Eles passam tão depressa as suas compras e sequer se importam em dar bom dia pro caixa. Eu devia ficar quieta. O tom de voz grave não combina, e […]

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– Muito obrigada, senhor, tenha um bom dia.

O cliente levantou a cabeça espantado, olhando pra mim como se não tivesse me visto antes. Comum, aquilo. Eles passam tão depressa as suas compras e sequer se importam em dar bom dia pro caixa. Eu devia ficar quieta. O tom de voz grave não combina, e daí olham como se um cachorro tivesse acabado de fugir e parasse na frente deles. Risinhos sem graça, lábios comprimidos, boca retorcida. “O-o-obriga-gado”, dizem.

De vez em quando um moleque imbecil que grita quando sai do mercado: “Traveco!”

Esse papo de respeito, visibilidade trans e homofobia ainda não chegou no Supermercado Nazareth (hoje Supermarket). Cresci em um tempo em que era normal apanhar por ser diferente. Na rua, na escola, em casa. A palavra bullying sequer existia, e respeito era usado apenas para os pais de famílias. Simultâneas, até – e a aberração era eu. Até os dezesseis anos eu era o “viadinho”, então saí de casa e passei a ser o travesti. Morei no interior da Bahia, vivi os piores cenários possíveis para um homossexual nos anos 90 – prostíbulos, drogas, caminhoneiros e AIDS – e sobrevivi a todos eles. Voltei para o Porto Novo depois que meu pai morreu, definhando naquela casa verde onde ele tanto me espancara para aprender a ser homem, e arrumei emprego de operador de caixa. Enquanto tantos buscam visibilidade, eu quero é ser invisível. Menos para o Malvino Salvador.

Não, claro que não é o ator – o que o Malvino Salvador de verdade faria aqui no Porto Novo? Há uns três meses ele vinha no mercado quase toda semana, devia ser novo aqui. Não fazia compras de mês, quase ninguém faz compras de mês no mercadinho do bairro; comprava coisas urgentes como alho, suco e aquele arroz que acabou. E eu ficava olhando de rabo de olho pra ele, aquele moço – não tão moço – que parecia o Malvino Salvador, e que pra mim era.

– Caraca, moleque, o caixa é travesti! – a voz me tirou da contemplação secreta que eu fazia de meu Malvino escolhendo tangerina.

– Boa noite, senhores.

– Olha a voz dele! – falou rindo o outro pirralho, camisa de banda. Deviam estar indo beber essa vodka barata sentados na calçada do Metallica Pub.

– Posso ajuda-los em mais alguma coisa? – toda uma vida de chacota, de ódio, de desprezo. Eu já devia estar acostumada, mas ainda doía como da primeira vez.

– Pode sim… Ele quer um beijinho!

– Eu, hein! Tô fora!

– Que isso, cara! O viado é coroa mas é bonitinho! Aqui, dá um beijinho nele, dá…

Antes que ele esticasse a mão e me tocasse um braço forte e peludo o impediu.

– Peça desculpas para a moça.

– Ih, que isso, cara?

– AGORA. – Meu Malvino, mais Salvador do que nunca, olhou pra mim e sorriu com os olhos. Se ninguém me visse nunca mais, não importaria.

Ele me viu.

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Aqui, agora – saudade dos beijos no muro do Adino Xavier https://simsaogoncalo.com.br/aqui-agora-beijo-adino-xavier/ https://simsaogoncalo.com.br/aqui-agora-beijo-adino-xavier/#comments Thu, 05 Oct 2017 19:13:21 +0000 https://simsaogoncalo.com.br/?p=5459 E este é apenas o final da história. Aqui, nessa mesma esquina onde tudo começou. Você está lindo com esses cabelos já salpicados por intrusos fios brancos. Eu me sentia velha até agora, então seus olhos pousaram em mim e tiraram a teia desses trinta anos. Mas este é só o final. Aqui não tem […]

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E este é apenas o final da história. Aqui, nessa mesma esquina onde tudo começou. Você está lindo com esses cabelos já salpicados por intrusos fios brancos. Eu me sentia velha até agora, então seus olhos pousaram em mim e tiraram a teia desses trinta anos. Mas este é só o final.

Aqui não tem o estranhamento de nos reconhecermos almas gêmeas vagando por este mundo até aquele encontro na porta da Hollywood. Aquele dia nós nem entramos, ficamos conversando no muro do Adino Xavier por todo o tempo que tínhamos até que se acabasse a matinê e nossos amigos voltassem para casa. Na hora de ir embora você me falou que podia até estar confundindo as coisas e não queria perder a minha amizade, mas que estava louco para dar um beijo em minha boca. Você escondia as mãos para trás e olhava para a ponta do Nauru, encabulado, e eu achando que você ficava lindo com as bochechas rosadas de vergonha e que nunca tomaria coragem de me pedir aquele beijo.

Aqui não tem a primeira vez em que nos amamos, os dois inexperientes realizando um desajeitado e cômico balé no sofá velho que a minha mãe deixava na varanda. Aquele sofá não está aqui também, mas talvez nele tenhamos vivido os melhores momentos de nossa paixão, os melhores beijos, os melhores papos.

Ainda tem o Caneco 90, ali na frente, mas não tem os vinte anos que passei fora de São Gonçalo, vivendo em um casamento que me deu dois filhos, 25 quilos e me levou o sobrenome de minha mãe. Não tem as brigas, as taças quebradas, nem os telefonemas interurbanos na madrugada para o seu trabalho para perguntar amenidades apenas pelo prazer de ouvir a sua voz. Não tem aquela menina que você me apresentou como sua esposa (a terceira ou a quarta?) uma vez no Plaza Shopping, em uma das raras vezes em que eu atravessava a Baía de Guanabara de volta e que ficou de bico enquanto a gente dava gargalhadas na praça de alimentação lembrando dos velhos tempos, dos velhos points – e daquele Nauru desbotado que você teimava em usar.

Aqui não tem o enterro de meu filho, a bandeira do Vasco sobre o caixão, os seus óculos escuros a me observarem do fundo da capela enquanto eu me inumanizava em lágrimas. Não tem a sua reabilitação, nem os espasmos febris de sua abstinência – assim você me contou uma vez, já que eu não estive perto. Não tem aquele Palio que você destruiu no poste em frente à prefeitura, e que levou dois de seus amigos e sua última esposa.

Aqui só temos eu e você. E uma saudade imensa. E o muro do Adino Xavier, e o prédio da antiga Hollywood, o Caneco 90 à frente e o conjunto de prédios que na época era novo e que agora nem é mais, assim como nós.

E uma vontade louca de te beijar de novo, como naquela noite, há 30 anos. Porque este é apenas o desfecho de mais uma história que demorou, mas está prestes a encontrar o seu final feliz.

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Amanhecer alcantarense – o amor sob os céus de Alcântara https://simsaogoncalo.com.br/amanhecer-alcantarense/ https://simsaogoncalo.com.br/amanhecer-alcantarense/#respond Thu, 28 Sep 2017 14:14:40 +0000 https://simsaogoncalo.com.br/?p=5451 O casal parado na calçada parecia prestes a se separar por eras, como um soldado que embarca para lutar em solo estrangeiro e sua Penélope. Ele, alto, aparentando entrado nos “enta”, cabelos curtos salpicados de branco aqui acolá. Ela, um pouco mais nova e baixa que ele, ficava na ponta dos pés para tocar os […]

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O casal parado na calçada parecia prestes a se separar por eras, como um soldado que embarca para lutar em solo estrangeiro e sua Penélope. Ele, alto, aparentando entrado nos “enta”, cabelos curtos salpicados de branco aqui acolá. Ela, um pouco mais nova e baixa que ele, ficava na ponta dos pés para tocar os lábios de seu amado. As mãos livres percorriam as costas, os olhos – quando se abriam – brilhavam em bumerangue.

Não era um cais, uma gare em Astapovo ou sequer uma rodoviária em Macondo. A manhã ainda não se decidia por nascer, e uma luminosidade baça começava a ganhar força no céu de Alcântara. Do ponto de ônibus cheio, transeuntes desprezavam totalmente a noção de espaço pessoal enquanto se acotovelavam em busca do coletivo que os levaria dali. Cedo ainda, e aquele monte de gente na rua, gente que deixava a cama e o café quentes para matar seu leão diário, tão longe de suas tocas. E no meio daquele batalhão proletário, o casal apaixonado.

Eu tentava não olhar, mirava o horroroso prédio do Pátio Alcântara à minha frente, plantado onde havia uma praça para enfeiar mais ainda um bairro já com deficiências estéticas. Vi Alcântara crescer com a Rua da Feira, e vi sua implosão urbana, sem ter para onde mais se expandir. Como um barco velho cheio de feios remendos, Alcântara ainda navegava, levando em seu seio milhares de trabalhadores e recebendo a baldeação de outros tantos a caminho da lida. Décadas ali, naquele ponto onde já houve (há muito tempo) uma padaria e agora era mais uma loja Marisa. Desde o começo daquela calçada (onde já houve um Max Box) até quase a delegacia, a ambição vigente era subir no coletivo e sair correndo dali, da feiura, da sujeira, do abandono. Menos para aquele casal.

Suas bochechas estavam vermelhas, e um sorriso pregado em rosa lhe causava covinhas. Nem olhava para o fluxo que vinha do viaduto, tinha a atenção voltada para seu amado. Ele, com uma bolsa de mão, calça jeans sapato camisa de botão e óculos, sussurrava coisas que renasciam nas covinhas do rosto dela, e olhares furtivos. Brilhavam, os dois, em meio à multidão. Cheguei mais perto e pude ouvir a despedida: “Você me liga assim que chegar?”, ela disse, enquanto ele  estendia o braço para dar sinal. “Ligo sim, meu amor”, “Já estou com saudades…”, “Eu também”. Trocaram um último beijo – não um beijo apaixonado, molhado e com os olhos fechados, mas um colar de lábios duradouro e olhares fixos, daqueles que só dão em quem se ama muito, e se ama há muito tempo.

Ele subiu no ônibus e a deixou suspirando, ainda dando tchau para as janelas repletas de caras sonolentas, esperando que o alcançasse. E, naquele ponto de ônibus matinal, seu suspiro não foi o único.

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Amor em trânsito: “Nunca mais boto meus pés no Arsenal!” https://simsaogoncalo.com.br/amor-em-transito-nunca-mais-boto-meus-pes-no-arsenal/ https://simsaogoncalo.com.br/amor-em-transito-nunca-mais-boto-meus-pes-no-arsenal/#comments Thu, 21 Sep 2017 16:58:59 +0000 https://simsaogoncalo.com.br/?p=5440 No último banco do 43, Bruno mordia os lábios para não chorar. Seu coração não tinha dúvidas quanto ao seu amor por Jaqueline, mas em sua cabeça pesavam as consequências do deslocamento quase diário, por entre tantos quilômetros e conduções fedorentas para encontrar a paz daquele sorriso. Bruno morava na Trindade. São Gonçalo é enorme, […]

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No último banco do 43, Bruno mordia os lábios para não chorar. Seu coração não tinha dúvidas quanto ao seu amor por Jaqueline, mas em sua cabeça pesavam as consequências do deslocamento quase diário, por entre tantos quilômetros e conduções fedorentas para encontrar a paz daquele sorriso.

Bruno morava na Trindade. São Gonçalo é enorme, mas a precariedade do transporte público inviabilizava amores à distância. Conhecera Jaqueline em uma peça no SESC, e se apaixonara de cara. Jack era amiga de amigos, e os dois grupos decidiram esticar da peça para o Bar do Blues, e lá sentiu o vento passar por dentro de seu estômago quando seus lábios a tocaram pela primeira vez.

De lá pra cá, três anos, hoje. Não via a hora de terminar a faculdade e começar a trabalhar. Jack se enquadrara de recepcionista em uma clínica assim que terminou a escola e nunca mais saiu. “Vale a pena, vai chegar a hora em que não vou precisar ir embora depois do Fantástico”, ele pensava a cada noite em que saltava no Alcântara deserto para pegar o 409 e voltar pra casa, depois de horas de varanda. Mas não daquela vez.

O celular vibrava em seu bolso. Sabia que era ela, mas não daria o braço a torcer, não aceitaria as desculpas desta vez. Chegara da faculdade, tomara banho correndo e partira para sua viagem. O ABC lotado saindo da Trindade, o Rosana que parecia nunca vir. Saltar na estrada, ziguezaguear as ruas de terra (bom, pelo menos não havia chovido), para não encontrar Jaqueline em casa. Justo naquele dia? “Da próxima vez, namoro alguém do Mutondo, ou Porto Novo.”

Jogou as flores numa lixeira no Alcântara. No 409, ruminava a ideia de como terminar o namoro. Não poderia dizer que era apenas a distância, mas estava muito puto por ter ido mais uma vez à toa pro Arsenal. “Aposto que vai dizer que o consultório fechou tarde”, mas quando finalmente pegou o celular, a bateria tinha acabado.

Desceu do ônibus, passou na padaria e comprou dois litrões. Entrou em casa cabisbaixo, sua mãe na sala assistia ao jornal e ainda chamou seu nome, mas ele não queria papo. Colocou uma garrafa na geladeira e abriu a outra, bebendo um pouco do gargalo antes de pegar o copo no armário, dando desculpa para as lágrimas.

– Você não atende celular não? – a voz de Jaqueline em suas costas quase o fez engasgar. – Quis te fazer uma surpresa, peguei o táxi em Icaraí e vim direto pra cá. Feliz aniversário de namoro.

Quando virou, ela estava linda, com um buquê de flores na mão – parecido até com o que jogara fora no Alcântara.

De repente, a distância entre Trindade e Arsenal se resumiu a apenas um beijo. Mesmo longe muitas vezes, ainda existe amor em São Gonçalo.

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E se a Linha 3 do Metrô fosse inaugurada hoje? https://simsaogoncalo.com.br/e-se-linha-3-do-metro-foi-inaugurada-hoje/ https://simsaogoncalo.com.br/e-se-linha-3-do-metro-foi-inaugurada-hoje/#comments Wed, 23 Aug 2017 21:06:14 +0000 https://simsaogoncalo.com.br/?p=5132 Clique e leia também: Linha 3 do metrô Rio já foi realidade na história de São Gonçalo Hoje de manhã Job não se conteve de alegria e acordou uma hora antes do despertador. Há dois meses ele planejava essa viagem. Saiu de São Gonçalo às 7h e chegou em Niterói às 7:30, um recorde!, graças à […]

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Clique e leia também: Linha 3 do metrô Rio já foi realidade na história de São Gonçalo

Hoje de manhã Job não se conteve de alegria e acordou uma hora antes do despertador. Há dois meses ele planejava essa viagem. Saiu de São Gonçalo às 7h e chegou em Niterói às 7:30, um recorde!, graças à inauguração da Linha 3 do Metrô. O mesmo trajeto, de ônibus, frequentemente durava uma hora e meia de sofrimento nos engarrafamentos.

A Secretaria Estadual de Transportes esperava alguns imprevistos no primeiro dia de operação da Linha 3. Um bêbado resolveu caminhar pelos trilhos próximos da estação Zé Garoto. Além disso, tudo correu perfeitamente.

Morador do Vila Três, um dos menores bairros gonçalenses, Job caminhou por 10 minutos, de casa até a Estação Alcântara. Despertou a curiosidade do rapaz duas pessoas prendendo a bicicleta no bicicletário instalado na entrada da estação.

– Amanhã venho de bicicleta pra testar o funcionamento do bicicletário.

Espalhados por todo o município, vendedores ambulantes se posicionaram estrategicamente em volta da estação recém inaugurada, prontos para correr caso a Guarda Municipal aparecesse. Um panfletista bem humorado, falando alto, distribuía descontos para compras maiores do que 30 reais em um sex shop na Rua da Feira.

– Tem metrô, mas São Gonçalo ainda sofre com a pobreza e a informalidade.

Job comprou um Guaragrac e uma coxinha num quiosque dentro da estação e tomou seu café da manhã andando em direção à plataforma, sentindo o cheiro do ambiente novo, completamente limpo, e observando tudo ao redor, como gosta de fazer.

Quando passava na roleta, dois cachorros magros e sujos invadiram a estação sem pagar passagem, mesmo preço do ônibus intermunicipal. Depois de uma perseguição engraçada, foram expulsos pelos fiscais contratados de uma empresa terceirizada.

O vagão não estava cheio. Job sentiu medo da população não aderir ao modal e o Governo do Rio de Janeiro interromper a operação da linha logo no primeiro dia.

Viajou sentado, para avaliar a qualidade dos bancos, e de pé, para se concentrar na vista pela janela. Passavam lá fora os pequenos imóveis comerciais de paredes pichadas e revestidas pela fuligem negra que sai do escapamento dos veículos, característica marcante da cidade, as pilhas de lixo nas esquinas, no pé dos postes de luz e as crianças indo para a escola.

– Ver a paisagem é uma vantagem do metrô de superfície.

Dentro do vagão, encontrou a mesma limpeza da estação. Limpeza em São Gonçalo é algo que ninguém está acostumado. De repente a Estação Arariboia surgiu, o fim da linha. Job desembarcou e para chegar ao trabalho ainda teve que pegar a barca para a Capital.

Conhece a maquete da linha 3 do metrô de São Gonçalo?

Confira no vídeo deste sonho gonçalense. Assista!

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